eu sei, eu sei, que vocês estão ouvindo. eu sei que estou falando em público. esse público do privado. privado do público.
na hora que abre o documento fico em dúvida de qual cena escrever.


por isso não faço nada, apenas continuo ouvindo o vendo,
e assim ele retorna, jorge, o canoeiro do rio-mar, e me diz,
veja, meu dengo, aquela mata que estamos vendo lá de cima, sabe, aquela mata com diferentes matos e verdes. ali tinha um rio. ali era água, por isso o tanto de verde. olhe, preta, é um rastro de água.

jorge some como fantasma.

aí vem rosa querendo se derramar de saudade. e sou dura com ela. eu digo, rosa, pare. pare com isso. mas ela é muito mais forte do que eu. é autoritária. é grande demais. e é bonita. tem um jeito. é um jeito de viver com o coração na poesia do mar. nos sertões. nas ilhas. rosa é navegante do acaso. é da poética do carnaval. é da política da delicadeza. é lucidez desatino.


quero dizer outra coisa que não isso mas não as palavras não dão a volta e chega ai, nos caracteres. como é que um cara em algum momento se faz essa proposição - quero escrever um romance de geração.


///////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////me fujo de novo.
foi assim que eu escrevi o livro em cena aberta. peguei o papel enquanto o computador não abria. mas o fluxo do texto não cessava de escorrer. e eu ali me derramando, e eu ali amparando o verbo no papel. a luz da tela iluminando parcamente a escritura. e da ponta da caneta que nada tem a ver com a separação mão peito coração estômago vísceras da ponta da caneta eu toda desalinhando-me.

o computador avisa que ligou.
estou stoned, estou pedrada. paro, por isso.

quando você diz você é?

me pergunto parando durante muitas horas e mergulho num tempo de dúvidas que paralisa a minha narração. emudeço com a cabeça uma babel.

edith entra no quarto batendo portas. o texto é o mesmo. que eu preciso voltar para os personagens, que eu tenho que parar dessa historinha de narração em cena aberta, de fluxo de consciência, de corpo-narrativa.

esmaeço

não tenho tempo pra brigar uma hora dessas. já tinha estancado o texto na dúvida.

me sento no centro da sala e começo a tecer teias. me boto mole.
- quer conversar?

curvo o corpo e fico toda cheia de passado.
ela levanta de mim e pergunta, firme, dura, toda pedra:
- mas por que? porque você foi pra esse lugar de novo? não estávamos aqui no balanço racional do presente, na divisão de tarefas, não estávamos aqui, afinal de contas, equilibrando balanças, fermentando textos, sendo duas três quatro adultas que levam até o fim as coisas. que desconstrói reconstrói funda e mina afetos em looping? levante daí agora e vá escrever.
consertei a última postagem, que estava péssima e louca e mal acabada.
não que estivesse se decidido pelo acabamento, mas tinha um jeito.
e edith não admitiria que eu ficasse escrevendo borrão ao vivo.
- acabou a nostaslgia?, diz edith, sarcástica.
tá aqui, ó, apertadinho.
vejo a janela o nome do Blog faltando um pedaço, nas mil abas abertas. olho, durante muito tempo o cursor

e pensando mil coisas. aquela lentidão da erva, mil coisas mil coisas a cabeça fervilhando de histórias. por isso




há uma pausa muito grande no movimento da digitação.

fico desaparecida do texto, por uma cota até a palavra brotar.



agora vou começar a narrar,
agora estou com o microfone na mão outra vez.



eu estava apenas sentindo tudo ao mesmo tempo que narrando tudo ao mesmo que dando uma pausa muito grande no tempo de dizer ,


leituras públicas
escritas públicas


vim cá,
pro bló, pro bloco,
pro desafio de ser multidão.


a materialidade da multidão
relacional
to - tal

eu sou o carnaval em cada esquina
do seu coração, menina


ponho moraes na radioarmarinho



- me levanto da poltrona para dançar. a essa altura, esquecendo do texto.



mas eles continuam ali. eles , os processamentos de dados
a Salvar
o texto
a despeito do seu movimento de p a r a r .


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salvando salvando tudo .

salvando salvando tudo . salvando salvando tudo .
salvando salvando tudo .
salvando salvando tudo .
salvando salvando tudo .
salvando salvando tudo .
salvando salvando tudo .
salvando salvando tudo .
salvando salvando tudo .
salvando salvando tudo .
salvando salvando tudo .
salvando salvando tudo .
salvando salvando tudo .
salvando salvando tudo .
salvando salvando tudo .
salvando salvando tudo .
salvando salvando tudo .
salvando salvando tudo .
salvando salvando tudo .
salvando salvando tudo .
salvando salvando tudo .
salvando salvando tudo .
salvando salvando tudo . escrevi tudo isso e esqueci de ir dançar.

danço.




você é um amor que - como uma janela - eu não posso deixar aberta todo o tempo, disse a xangai e saí porque não conseguia falar de amor numa hora daquelas. precisava voltar ao sol, única luz que poderia nos fortalecer naqueles tempos sombrios. melhor ouvir os loucos, meu amor, vamos, venha já, vamos pra rua.

/////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////

ele recosta as mãos sob o mobiliário e decide lixar mais uma canoa. tinha se cansado da rua. e o barracão era o mundo. queria o cheiro da preta, queria sua fruta aberta. tinha se cansado demais das cordas que puxara diadentro, com os homens do mar. era como se quisesse mais aquela canoa de dois, aquele rio estreito, na beira de uma pedra.

////////////

isso tudo ele me disse depois, conto a caioá, meio sem jeito de discordar, sabe, na crise de quem quer um caminho diferente e não consegue dizer. aquilo que ele não me diz porque não sabe, completa caioá.

eu respirei fundo e sorri para xangai.
depois parti, porque eu não podia parar.
estou há horas sentada na praia de iemanjá em busca de rosa. muitas embarcações chegam e partem, nenhuma é o pradianti. entro nas ruínas de uma casa abandonada.  foi muito tempo que passou, doutor. eu não me lembrava como tinha chegado até ali. o vento sul zuninha meus cabelos e me levava para um tempo que era totalmente desconhecido, do esquecimento, o tempo da lonjura.
mas uma hora, como um vulto de mar,
veio um lapso e me passou o velho apartamento de rosa.
o rapaz cantando, ao violão de uma das sala - a flor do velho, me curou. o sol se recolhendo em mais um ocaso, um ocaso do vento forte. tive essa imagem e me lembrei de repente de rosa, não, eu vi o relance de rosa na casa abandonada, com os olhos em brasa. como um sol enorme iluminando a parede de escritos, lambendo a casa inteira com sua chama; secando tudo até virar pó. rosa, uma fogueira surgindo no meio do mar.
eu não queria novamente ouvir, voltei ao tempo neblinado da memória, respirei e disse - pra que ela escutasse - eu não quero mais ouvir você me narrar essas histórias repetidas do mar, rosa. essa doença de sua mãe.

-a poeta profeta que delira e funda na poesia o sonho, o desejo - ela, então, me enfrenta.

senta-se e me encara mareada e carnavalesca. era possível ver bem quando rosa estava mareada. ela tinha um olhar fundo como o das sereias. e uma obstinação das ciganas. era pura explosão .



e ela me disse



f a t - a l
y   v u l c â n i a :


- a paixão é leme, irmã. ando colecionando palavras. olhando bem perto para as miudezas os desperdícios as cordas que me exigem toda a força dos meus braços e só os meus braços, irmã, a apertar os nós de cada porto,
você coleciona pedras, nega, você não sabe do que está falando. não sabe ser água, abrir caminho por dentro da água.
eu vivo inteira dentro desse pradianti. e eu não paro; nunca mais. eu não teço espera como minha mãe. eu parti, moça, essa coragem eu tive, eu parti. de maneira drástica incendiária abrindo tudo que fosse caminho, eu peguei aquele barco e não voltei nunca mais.


o acaso, o transitório, o errático. esfria esses pés, rosa. enterra o coração no quintal. é muito arriscado viver no mar.

- nós somos um povo do mar, me diz, incorrigível.
você que cata essas palavras como pedras. me deixa navegar no acaso. é você que escreve, que emoldura o tempo. não bote palavras na minha boca. eu sou livre. eu












passamos muito tempo em silêncio. nós duas e o insuspenso não dito depois do dito.

ela me disse, bem mais serena, você quer colecionar palavra feito pedra. eu quero navegar o acaso, nega.

- assim você não tece, você se desfaz.

- por que diabos eu preciso tecer territórios afetivos? por que diabos o amor? no mar, é a vida que grita. não tenho tempo para o delírio. não vê? você é a delirante, morena do mar, você é da beira. não escutas o assobio de caymmi nos seus ouvidos? a incerteza também está com você, mana, somos um povo do mar e você também ama os canoeiros, que nunca ficam, que sempre voltam.  que vivem do risco, embora ancore alguns dias no seu quintal. quero essa sina ao revés, a favor do acaso, do mistério da vida. o caminho é um só e pode ser vários.

ouço tudo
inteira e partida
como ela

e me boto marítima solene e profana
me boto n e la
a caminho do ar marinho.
















arquivos andantes
/do tempo
essas máquinas públicas de fazer passado
essa rede de recados
incessante
da vida
escrita
nas máquinas.
do tempo
não nos sobra tempo. vivo. vibrátil. pura presença.
no mais tardar,
amanhecer com o canto da sereia
esquecer um pouco de tudo
ser beira,
ser só
a beira mar
salve salve, ó grande mãe
d i s s o l v e r 
ideiasfixas
com a água 
desse mar i m e n s o
aquela moça
andando pra frente
vista de trás

indo embora







alex oliveira s/oarmarinho


aquele sol
e
eu,
reabrindo o armarinho
percebendo - com as mãos - 
que aquele mundo de lantejoulas tinha ficado para trás, que muitos se perderam nas frestas das caixas, entre um taco e outro. mas restara, me sobrara aquele pouco, que era tudo, era muito :  o cegar do sol, impermanente esquecimento. 



as amêndoas amassadas no chão do largo. tampinha de heineken joga amarelinha. três voltas na praça com a bicicleta de ritinha. o menino na garupa. a vida no delírio de rodar rodar rodar e cair. brincadeira favorita. titia na lanchonete, o bolo de tapioca quentinho e mais gostoso do mundo. pode demorar muito. pode demorar pouco. tu vens, eu vou. dois perdidos e muitas variações. um bolo, um garfo e um cachorro quente de faca. onde o vento faz a curva, venta forte na nossa cama. 
um frio na barriga 
de ir embora. 

 que aperto que me deu.

eu tinha sonhado que ia me mudar para a casa de minha avó, no interior. eu estava arrumando os guarda-roupas com minha mãe. toalhas, lencóis. elas vasculhando, nós, as mulheres, vasculhando, trocando tudo de lugar. e os quartos, quão nítidos eram os limites daqueles quartos.

 que aperto que me deu.

ficar de longe, 
voltar ao útero de minha vó, de minha mãe, no movimento daquelas gavetas, 

o dia seguir vazio, na ausência delas,

 que aperto que me deu

que tive que voltar ao mar, 
o único caminho de volta.

aquele mar vermelho
agora de ressaca.
é tanta vida, meu deus, é tanta vida
pulsando dentro das gentes.

*

fiquei pensando que se tivesse esse silêncio total, sempre, sempre sem resposta, não me custaria nada continuar escrevendo pra você, em cena aberta, mas eu prefiro essa intimidade das cartas sem resposta cuja resposta é um preferiria não. não é um não, é uma preferiria não. há potência nisso, darling, há potência nisso; veja, mas eu preciso continuar dizendo, contando, mandando cartas pra ti. mesmo que você se inquiete, mesmo que você não se inquiete nada. mesmo que nada, eu tudo.

*

vi o mar entardecendo vermelho, ficando quase escuro, mas demorando muito de mudar de tom, de modo que a experiência da cor, a experiência da cor, meu amor, passasse pela pele da gente. da pele de sal.
às vezes perco o fôlego. é natural quando se canta alto e forte por muitas horas. correr os dedos nesses teclado é provavelmente a melhor ação de todas. e quando isso acontece, talvez seja esse sopro de vida,

o que era mesmo que eu queria dizer.


*

o cara me conta


não esquecer
a alquimia

a transmutação das coisas pelo tempo.
o tempo
ô doce á

adoeci
acreditei no tempo
tornei a acreditar que poderia eu mesma escrever o destino
e tomei um rasgo no meio das letras.

não venha você, leitor, achar que o texto é movediço, que você precisa de mais detalhes.

volto.

a presença é importante, cara.

última aprendizagem com pouca sabedoria ou livro dos prazeres.

e ele me dizendo, se desfaz, se desfaz, filha, para se refazer outra vez. 
o mínimo
máximo
comum.
caioá se recusa permanecer na sala caso continue tocar aquele mesmo disco da fossa. bethânia vai te levar pra uti, darling. ofereço um caetano sabendo que ele vai querer, no máximo, um gil. uma coisa meio refavela ou eu preciso aprender a só ser ou um tenho sede, no máximo estourando. eu digo, oras, deixa eu beijar cotovelos, ficar escrevendo de calcinha. lá me londres vez em quando me sentia longe daqui, canta gil. ele ouve, ri e diz que eu preciso rir um pouco mais de tudo isso. do meu pequeno caos, ele me diz, do seu se perder. fazemos o melhor silêncio do mundo. porque eu sei que ele não está pensando no que eu estou pensando. está ouvindo gil e cutando qualquer coisa na própria unha. eu dichavo ideias em cima de um livro, acendo mais um cigarro e sorrio um pouco contando a noite anterior. ele se interessa porque se seduz muito mais do meu presente que do meu passado. minha noite anterior é menos fabulosa, mais poética, mais vigorosa. história repetida não. ah, caioá, me deixa. tudo bem, minha amiga, se o passado te faz criar, se você escreve pela memória. um anticomputador sentimental, cantarolo, pedindo que ele se levante para pegar o vinho para começarmos nossa noite. tá bom, eu tiro a gal, aceito a condição. sozinho e apaixonado é o pior verso para uma noite de lua como essa. sem querer o dj shuffle me larga um chuva de prata e ele, de um jeito todo dele, solta uma gargalhada brava. deixo um pouco tocando e só me atino a tirar quando começam os primeiros versos de aquarela do brasil, aí já é demais. começo a lembrar da instituição de ensino, literatura brasileira e construção da nacionalidade, e fico aluada. perco caioá de vista. já não tem nem som de se ouvir, só o da cidade. stop geral. acabo de descobrir que comprei um pisca pisca de natal que precisa de pilhas. não acredito que eu comprei um produto que precisa de pilhas, digo alto. talvez te sirva quando cortarem sua luz de novo, diz caioá-espinho, altamente provocador. nega, que horas que você vai se dar conta da sua desatenção. que horas você vai corrigi-la. aí choramingo dizendo que ele está sendo muito cruel comigo. e estava tudo muito confuso. muito trabalho, tanta vida, tantos cortes. vamos tecendo imagens como essas no papo ao longo de toda a noite. é o novelo que temos, é o emaranhado. digo que no fundo agora é pagar o preço de ter arriscado. é assim o risco, diz ele. mas que tinha também um certo orgulho no meio de tudo isso. que aquelas fabulinhas talvez fossem um capricho. caprichosos de pilares, respondo rindo alto. ave, que quando fica tudo assim tão grave, chega bethânia de tanto drama. está bom por hoje, sim? toca um samba nesse rádio que a noite ainda é inesperada. caioá acende um cigarro e confabula encontros no celular. eu fecho outro cigarro. tá tão bom aqui, digo preguiçosa. ele reclina o rosto, fazendo com que caia um pouco as armações de seus óculos. levanta uma só sobrancelha. sorrio pra ele e pego seu colo pra mim, enquanto ainda é tempo.

tira o peso das coisas, ele me sopra no ouvido, como um bom dia e vai embora sem tomar café da manhã, mesmo sabendo que eu odeio que ele saia sem tomar café da manhã comigo. principalmente se for domingo, se tiver um verdinho pra bolar um papo, se a gente emendar almoço no café, um corpo no outro, e de novo, e de novo. tira o peso das coisas, me espreguiço com alguma dúvida. seguro as pedras para fazer volume nas mãos. isso me acalma.
e eu fico assim lua cheia

tempestade em copo dágua
ânsia de iansã rainha.
tenho que escrever, mesmo que isso te soe uma necessidade de fabulação, disse a moça. tenho que escrever nem que seja pra rasgar depois. viver o ato do escrevimento; lembrar. o problema da leitura é esse, cada um tem a sua pausa para cada vírgula. viu, sim, estou confundindo tudo, misturando, recebendo as palavras que me procuram. mesmo que isso te soe involuntário demais, espontâneo demais, mesmo assim, eu procuro e sou procurada pelas palavras. eu me encontro com elas, que, ternas, me abriam, sim, é isso mesmo, me dá esse alívio deixar o pensamento solto sem que precise pensar no que isso soa a você, eu disse a moça. por isso vou continuar a narração desses afetos, essas fabulações de afeto; retalhados assim, no próprio corpo, que me desfaço e me refaço.
é muito sim
pra tanto não.
nãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonão
aquele mar vermelho
agora de ressaca.
é tanta vida, meu deus, é tanta vida
pulsando dentro das gentes.
ele me botou no colo me chamando, vem, minha preta, volte para sua ilha, que sou eu. dei um suspiro longo de cansaço. não era fácil a vida no mar. e xangai podia me acariciar as feridas como ninguém, porque era leve feito vento e nunca me embriagava de afeto, era sempre pouco e certeiro, curandeiro. trabalhava certo, como se dizia por aquelas bandas.
era canoeiro de rio-mar. tinha margens estreitas, não era difícil descer de seu pequeno barco.
e quando me amava, me botava líquida, mas nunca me furtava o direito de ser terra.
por isso, no final, recostava o seu ouvido sob o meu, e me imprensava com o corpo todo.
o peso da realidade de seu corpo, aquele peso que me abrandava as chamas, me curava a febre da paixão do mar. vem, minha preta, ele dizia, venha para o seu xangô.

Calma deixa eu entender primeiro.

 Mas escrever não é entender junto?
ocasos de oyá
cada um tem o xangô que merece.
deve ter um motivo ficar tanto tempo parado. talvez eu tenha que voltar pra o estudo para profanar o sentido. mas não era isso que eu queria dizer.

me tirou uma força. acho que foi isso. uma questão de força.

- o que aconteceu?

- desviei o caminho outra vez.

- quis muito, outra vez.

- tudo?

- eu disse muito, muito, doutor.



que canto é esse que vem lá do mar?
que canto é esse que vem lá do mar?

é iansã que canta
é iansã do mar
é pouco estômago
pra tanto mundo.
mastigo folha na ilha dos lotófagos.
procuro a qboa para pingar nos olhos.
quero esquecer tudo outra vez.

o corpo-gelo do rapaz, o corpo-esquiva. intermitente, em fuga. quero apagar do meu, de mim, esta memória das mãos se esticando para tocar. me esticando inteira para tocar.

nunca mais, nunca mais o corpo-gelo
essa ilha de sonhos extraviados, de desejos falidos
nunca mais
essa distração
essa armadilha
de voltar sempre ao mesmo lugar.



eu errei na conta.
pus número demais, de menos,
só sei que errei na conta.

o som do moço se apraiou pela saleta
e por puro esquecimento
eu deixei a garrafa
cair
e se espatifar no chão

                                                                                                       para juraci dórea
la mer

/substantivo feminino/

há mar

baía. bretagne. bretanha. bethânia.
nós te amamos - MUITO! - grita o moço em plena gravação.
subjetividade geológica. pedrinha miudinha é de aruanda ê. florações da realidade.
with SAILOR OF ALL MOONS e seu gesto de amarrar luas em mim. incessante inconstância.

veja, filha, me disse a beira, estar seca é estar pronta para ser maré cheia, outra vez. preamar.

pés de vento, mãe dágua.

little wings. hendrix uivando nos ouvidos. e oarmarinho ali, no meio do caminho. mundo mundo vasto mundo. imensidão de mar. coisa mais maior de grande. dentro-fora. tãolonge. dj shuffle tocando aláláôôuôôuô in the middle of nowhere. e esse oarmarinho ali, aqui; em toda parte.

a minha pátria é onde o vento passa.
e nunca acordo e nunca durmo.

a viagem da viagem. deslocamento afetivo. proteu, fênix. percorrer essas distâncias, tatear ausências. vazios. reativar memórias e u a li, com meus castelos de beira, querendo rodar o mundo no saveiro de Chico.

o artista fala de outra coisa que é a mesma. que o tempo constrói a obra.

veja, filha, não é que ele destrua a obra, o vento, a degradação, a transmutação da matéria. tudo isso, filha, tudo isso constrói.

dentro-fora, me pego pensando assim. se não é isso mesmo, que os opostos sobrevivem num só. construir destruindo, destruir construindo.

morrer sucessivas vezes para viver, me canta o passarinho poeta, que imprime no barro sua palavra-gesto. na trilha da vibração das pedras, da matéria viva, a metamorfose das coisas.

reparar em tudo pela primeira vez, como florações da realidade. para então germinar uma nova pele, anoto depois, mas não antes de acariciar as crostas, as camadas.

ser a seca na iminência do fluxo. ser tão.

com a maré vai o perigo de toda vida.
preamar, o ponto mais alto da maré. que onda que onda que onda que dá.

e a cor ali, a moça não para de dizer, escrutinando meus ouvidos. entender o meu desejo, primeiro, menino-trovão. o meu desejo. uma madeleine na concha da mão, bocado de tempo pra lembrar. uma ancestralidade que me molha os olhos, que ficam pequenos como os daquela menina do cais, Rosa, filha de Chico, que quer ser canoeira como o pai, que se criou no movimento dos barcos. por isso o adeus, sempre o adeus. saudade nenhuma, aprende, menina, como estratégia de sobrevivência, o tempo todo ser essa âncora doarmarinho, qualquer coisa que levante vôo toda vez que se fixa muito fundo, que fundo é também a beira, é estar seca, ser cratera, cratera de tempo, ter essas crostas, essas pedras rodeando toda a costa.

pradianti, buttlerfly.

veja o mar, filha, amar deve ser essa mutação, essa trilha de pedras. seja íntima dessas miudezas, aproveite esse sol para se secar, para dourar.

verão que virá
poéticas de maré cheia

a mar mãe dágua
eu soprei, de leve. bastou isso, um sopro leve que fizesse o rei de copas desmoronar do castelo de cartas. e eu disse nunca mais, nunca mais, saudade nenhuma. eu tinha vento nos pés. a mesma boca cheia de sol. tudo nascendo outra vez. que aquilo era estar livre para o novo, o novo que aguarda todo e qualquer passado, pra que nunca nada pare de se reinventar. eu soprei, de leve. e não ficou mais nada de pé, além de mim.
há muito tempo que não escrevia. fiz no enseijo dessa conclusão. achei que seria interessante escrever as considerações finais em forma de postagem. pensando que a postagem é algo que sempre pode estar na iminência de ter outras depois dela. que ela estaria num lugar de teia. uma rede de sentidos se construindo incessantemente.
eu ainda não voltei, e ele respondeu, não, você ainda não voltou. e engoliu um silêncio, fez de quem ia e desistiu de dizer. não queria conflitos, ele. queria tudo leve, leve demais. como um castelo de cartas onde reinava. mesmo que se desfizesse;

ela já queria se desfazer, se desfiar assim, rainha de um tear. que ventasse sim, mas tivesse presente, feito tem todo corpo costurado. um volume.

um volume
que ficou
pratrás

que eu nunca voltaria outravez.
tudo agora
tem a tag
#tese

t-edio - t-zão-t-otrem
enquanto engomo a calça, tudo acontece. a despeito de mim, pela simultaneidade do tempo.
apertar o rec é se acalmar com o tempo.
está tudo guardado e em aberto.

um registro, antes, um desregistro.
decupagem bem-querer
deixa o sol entrar no teu peito e me perdoa, meu amor. me perdoa. te perdoa. te cura, te cura, eu disse querendo que ele voltasse, que eu tinha mesmo apagando a pegada dele, mas que tinha sido isso e já não é mais isso. entendeu? mil e-mails devolvidos. e ele me lendo e ele me negando resposta. que ele me desse aquele outro outrono, um traço que refizesse aquele inverno que ele passou sem mim, cheio de promessas. e eu andando por canoas, amando marinheiros, sempre só no cais. e ele oferecendo vida na neve que cobriu nosso telefone.
eu me assustei, eu disse, caioá, eu me assustei. mas querendo agora que ele voltasse.
- qué que você quer mais de hoje, laura,
  qué que cê mais quer?


incidental: quelé, essa nega quer demais.
as letras de outro tipo, para citar os babilaques. antropofagia.
http://www.youtube.com/watch?v=UZUsxY02ClU

coloco play.

partir.

"sou o único homem a bordo do meu barco."

ulisses e o amor.

hago de outras mi voz. laura pacheco.
voz como uma perspectiva que constitui o próprio sujeito.




Morar no trânsito. Habitar o transitivo. Se colocar em caminho. Estar onde não é. Ser em todo lugar. Qualquer lugar. Ser precário. Apropriar qualquer suporte. Utilizar todos os meios. Nenhum meio. Plástico. Caderno. Folha. Sombra. Mangueira. Carro. Garrafa. Lençol. Caroço. Revista. Caneta. Capa. Lata de Goiabada. Acaso. Lance. Consciência. Mondrian barato. Ser precário como única forma de viver. Viver o precário como tática de combate e devoração. 74 – 75 – 76 – 77 – 78. Perceber no precário o transitivo que cria. Experimentar o precário. Ser precário. Em cada gesto. Em cada composição. Em cada ritmo. Em cada take. O precário consciente. O precário como luta. O precário como resistência. Como forma de dobrar a existência. Como canção de mundo novo. Como terra distante alcançada pelo gesto. Jequié. NY. Itapoã. Beirute. Taprobana. Speranza. Nenhum Eldorado é mais dourado que star em trânsito. Ser marinheiro do mar da lua. Construir um barco. Morar nele. Morar no barco precário. Navegar. Transitar. Ser precário. (PIRES, 2007, p.114).
caioá se senta e pede que coloque alguma coisa em seus ouvidos,
para não enlouquecer, ele disse

http://www.youtube.com/watch?v=oNr6aP_xnUY
CAIXA ALTA, A VOZ DA REESCRITA.
logo logo que a gente muda, bem loguinho, é mais difícil. confortável é caber onde nos cabe. o desejo desenfreado, a vontade de consumar a qualquer custo. parar, se olhar, se ouvir requer entrega, um mínimo de compromisso. ouvir uma canção arranhar na gente. júlio segue me ensinando a duras penas suas curvas, suas reviravoltas. um estilhaço que ecoa dentro, ecoa fora. é um tempo de guerra, é um tempo sem sol. recobro finalmente alguma paz quando encontro qualquer coisa de força mesmo no enfraquecimento. e só por isso que consigo cá dizer.
é ver o quanto e até onde a gente pode. e gente pode muito, mas não pode tudo; nunca.

edith leu e disse que era uma borda da autoajuda que nem agradava o mercado nem se safaria de vender como literatura. que eu não tinha bordas. e que parasse de uma vez por todo de falar que a escrita tinha me curado, que escrever era oracular... daqui a pouco iram me tachar de haribol e haribol não vende nem faz história na literatura nacional. no máximo um hippie doidão posando de hipster, mas em londres, não na bahia. tentei convencer edith de que o aleatório ainda ia me levar longe.