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aquele 
frágil
entardecer 


me rasgando o peito.


era essa e muitas outras imagens que me vinham. e uma pata de loba, da terra, me azunhando o rosto. um gesto leve, familiar e ao mesmo tempo cortante. que nem palavra. que nem navalha pouca afiada. repentina feito contração de parto, que se espera mas nunca se sabe pra quando exatamente. um oco veio lá de dentro, como se fosse um fluxo do vazio. ecoou nos arredores da fogueira que xangai tinha acendido.

uma queda dágua me arrebatou. cai como uma loba, em idade de transição. serpentes, serpentinas, dentro de mim. a seiva me lavando o passado para que eu entendesse de outros. para que eu entendesse tudo que fosse maior. pus pra fora um pouco do que engoli. para entender como aquilo me tornava uma, só uma. e eu era as árvores, eu era a mata. foi quando morri. morri outra vez. e habitei o mistério da mata. partilhei dele. eu estava expandindo, passando por cima do passado recente. eu estava me lembrando, na medida em que me esquecia da tribo recente. estava não só me lembrando, mas habitando de novo outros tambores que tocavam meu coração. estava refratando,refratando minha narração demolidora. e prensada. dura. pedra.
eu tinha morrido outra vez.

o compromisso de se transformar
contínuo
o curso da vida
iroko

a existência,
a alma,
esse vulto.

depois de ter tropeçado, várias vezes. depois do medo me tomar, entendi que aquilo não era pouco.

entendi que tinha ficado seca, parado de chorar, porque tinha perdido a coragem de me derramar. de estar liberta. de estar sincera com alguma verdade. por isso, por isso eu voltei a chorar. chorar até que inchasse toda a pálpebra, que contivesse no muco, preso, tanto liquido que me fizesse morta-viva. paragem. gramas verdes, gramas verdes, e o líquido depois quando passou um vento. um vento oco. estava conectada outra vez com todos os sentidos, inclusive daqueles que não pudemos nomear.


terroristas da floresta.
 o lobo me convocava para a luta. 
para não passar ileso ao amor, à poesia da vida.


eu voltei a escrever porque voltei a escutar-me quando escutei a floresta. quando ela me curou.




























corra e olhe o céu s/sp

para nicolas soares


foi uma das coisas mais bonitas que li nesses últimos meses, semanas. especialmente nesse dia cinza cá num calor incompreensível, meu menino ardendo de febre na cama de casal. a bateria acabando e eu não conseguindo escrever, porque choro como nunca. cartola moendo as notas no tempo, no cotidiano e eu correndo pra deixar vir aquilo que esteve em silencio, a vida que não quis ser escrita. meu corpo coberto de hera. cheio de uma memória tátil, muito menos que ideia que pode a escrita descrever. pouca certeza, muitos adjetivos, assim que escrevo, cheia de perguntas. enraizo um agora, agarro-me ao movimento de dedos que me cura, neste teclado omolu.
.
seco-me tem hora.
ai não vem o fluxo.
fica uma razão sem corpo, num fluxograma sem sentido, uma taxonomia onde não me inscrevo.
uma água de sal, sanitária, cobre de brancos o passado recente e não me lembro de nada, me lembro do nada, isso que agora no tempo percorro com as mãos, este vazio coberto de hera.
não sinto saudades. não sigo modas. fragmentei as linhas de número que nomeiam domingo a domingo. transcorri, sangrando, sem nada ver. fiquei com letrinhas pequenas sem lupa. foi tudo, eu explique a ele, que diziam aquelas coisas bonitas que me emocionavam, foi tudo naquela bolsa. um bloquinho de garranchos, o livro dos acasos. as pontas dos lápis se gastaram, fiquei sem lâmina. interrompi meu fluxo, pousei no passado presente demais, dispersa demais. deixei água parada, não soube acender o fogo.
uma contradição de ser origem e presente ao mesmo tempo, mãe e mulher de muitos homens, contemporânea de mortos, de palavras defuntas que gravaram o papel.
mas para que publicar, apertar o botão e dizer isso em megafone cibernético?
por que encarnar o tempo de palavras se não para viver o dia?
.
me pouso a cada ponto, caminho muito devagar pelas linhas que se desdobram das mãos. peço licença para de repente ir indo mais devagar, sem turbilhões, sem me furacanizar, eu disse a ele. caminho em frases sem saber o que são, dando vazão as minhas mãos cheias de água. mato se habituar-me a todo dia aguar as plantas. morro na sequencia de hábitos que nunca deixam de me frequentar.
.
percorro o mato baixo que se formou em meses, semanas, quando não consegui ver o que nasceu, o que deixou de brotar, o que matei de amor.











                                                                                 



PARA bERIMBA DE JESUS

Just the Wind blowing _                                                                                        
Without legs.                                                                                                             
_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _                            
_ an ant climbing the paper                                           
 sweet paper, honey                                                                                                            […]
a writing made of sugar                                                 
volúvel, não                                                                                                                        very
solúvel.                                                                                                                   green grass 
des_carregador_ _ _ _ _ _                                                                                     and a lake
rega essa grama                                                                                           dancing over me
para pôr os pés                                                                                                I already lived
e sonhar, outra vez                                                                                     this kind of body
                                                                                                                  a very late lake soul



















poro s/armarinho


para priscila risi, para carolina fonseca

babe,

fico pensando se não é a alucinação a justificativa daquilo que faltou de arte, se é que pode se justificar, se é que se pode chamar assim. só um prolongamento da sessão de cinema pra essa janela, esse som. fico pensando num bocado de coisa. e a cidade ao mesmo tempo também me atravessa de memórias, de um estranho estado. será que deve ser assim ser ovo? fico ouvindo e repetindo, belchior revolutions, belchior revolutions. será que escrevo diferente com aquela mata chiando, com esse corpo-cidade digitando de uma gambiarra que não deu certo, um acampamento? será que escrevo diferente sendo atravessada pela cidade, ou que esse dedo só, esse corpo sentado desse jeito, tudo isso, eu repito, tudo isso, junto. será que não é isso? amar e mudar as coisas me interessam mais. coisas reais. reais, babe? como?

*
Meu corpo que cai
Do oitavo andar

*

entre algum
goiás - plano piloto-pós-plano piloto
POSTOJOTAKRISTO
SENSUELEN
COCARI
UNIDADE CAMPO ALEGRE
CTG NOVA QUERÊNCIA



*

talho, fio e digo, cosendo e cortando, cosendo e cortando. muito sol me refresca o talho. o sol como curandeiro, cicatrizando a pele. cascas, restos, reutilizáveis. pó e desprezo varridos sem pá. revolvidos de terra. esforço nenhum quase só um carinho no cristalino para que se possa ver melhor a lua, nascendo por detrás daquela árvore que se põe como sombra naquela lua que nasce, depois de despontar, muito rápida, muito gema.



*

vigiava para não me deixar desendurecer. por isso, era depressa qualquer alucinação, pois as coisas tinham uma realidade onde não cabiam voltas, porque tinham uma bruta sonoridade, com uma grandeza de poesia que nunca acontecido densa que foi, por isso não era voltar. ou estou me confundindo que já vivi esse sertão na voz?

*

quando ecologizei, só bastou isso, não perguntar.

*

endurecer depressa
logo após cada despedida
virar pedra.     um pouco.
fortaleza
qualquer coisa acima do diafragma que enrijece e ajuda a seguir.
no umbigo, uma bacia de terra.

tempo de quaresmeira
e alguma cerca viva

uma palavra em diminutivo que se perdeu no chapadão do pasto e as mães se aguando os olhos e eu desejando o regador para a aridez da vida sem sentido, essa do ninho vazio.

ê boi.





















bailaor s/violeiro

para pablo   


ele voltou um homem feito. e me disse: pega a solidão e dança. sorri. você precisa partir outra vez, continuou. volte. 

*
daqui de tão longe, posso te ver? sou toda memória, meu amigo. você escrevendo na parede arriscar e a gente batendo asas. porque tu és do risco. mas não é isso? viver é muito perigoso? és vasto, amigo. não cabes em ti, escrevi em esperanto para que só ele pudesse entender.  

*

o menino passou por dentro do fogo e viveu. tinha muita água dentro de si, fevereiro que era. mas foi por uma fagulha que o menino passou por dentro do fogo e viveu. 

*


                          e precisamos todos, rejuvenescer. ele escreveu na parede com giz de cera azul marinho.


*
*

ela dizia uma coisa que era linda: ele é teu braço. às vezes eu achava que era um prologamento de mim, de tão meu. por isso o abracei forte, com todo o amor que podia caber na força que se faz para envolver o corpo do outro. onde estive o tempo todo que não aqui, do teu lado?

*
o passado nunca mais.

*

viver é o mais gostoso, meu amigo. é poder se reinventar todo o tempo. sei que sabes disso porque és vasto. és vasto como um mundo. és um mundo, meu amigo. um furacão, por vezes. tens um brilho nos olhos de se apaixonar, mesmo quando chora, mesmo quando ri, mesmo quando danças. e tu é dança, é a música pulsando no corpo, o canto alto e performado. és estético, digo enxugando uma lágrima qualquer que aconteceu, do lado de dentro. você pode até dizer que estou por fora. pode ser, pode ser. eu estou longe. tenho tudo de memória. nós, uma noite muito laranja, uma cidade insana, absurda. o passado tem essa foto de dias de jardins internos de super quadras. onde nossa loucura era alimento. feito algodão, feito voar. não era isso que a gente fazia? voar? estou tão longe, assim perto do mar. morno e ingênuo. era assim o passado. mas tem alguma coisa que é um presente de nós. alguma coisa que está dentro ali da caixa de ipê escrito de vermelho por fora: ternura. és meu irmão. te sinto aqui dentro do quarto. deitado na minha cama, dormindo comigo. tomando café, dentro de mim, fora de mim. você é um disco de caetano indo lá virar o lado na radiola. você é este moço lindo cantando e dançando a rumba azul. sensual. és muy fuerte, canto em seguida. essa força do furacão, entende? e que sabe ser brisa. 

*

eu sou funcionário, dizia eu. ela é dançarina. no meio da sala podia se ver o teatro. e nós virávamos, juntos, um trovador. cantando o meio do mundo. e seu centro geográfico, o sertão. voltei. para saber que tinham roubado a minha ilusão naquele nonagésimo congresso de esperanto em copenhagen. e a realidade era o amor. por isso voltei.  

*
*
like a rolling stone.





















ao remetente,
não encontrado 























tintas s/memória


para liana f

no meio das pastas do congresso, eu achei, tempos depois, um dossiê laranja. um postal escorreu da folha transparente e começava com ela dizendo que precisava ir embora. está ficando tarde e não faz mais sentido ficar sentada aqui. e eu me lembrei do projeto da casa, do nome dos filhos, da ficção afetiva que criamos. quase uma dramaturgia. ela reclamava que o castelo tinha ficado lindo, mas que sempre soubemos que o mar levaria embora... porque era assim a ficção.

está amanhecendo e eu também estou sentada, como ela disse, perto de uma linha laranja. mas, ao contrário dela, não há castelo, há ruínas. e nem há chuva. e nem cigarras. e dormiria facilmente, não há insônia. ela sempre dizia isso: que o barulho das cigarras não deixavam ela dormir. parece que tem uma bolha morando dentro de mim. foi exatamente assim que ela falou. bolha de sabão? talvez sim. releio várias vezes o que ela diz sobre alguém dentro parecendo gritar. mesmo serena como estou posso sentir o que é. penso seriamente como o que nos uniu foi isso, 
todos nós, naquela juventude de chinelo de dedo roçando o barro vermelho.

* 
*





                                                                  
não me cabe dentro dessa mala velha que você tanto gosta


*


quero dizer agora que não cabe mais sentimental na nova onda que tomou nossa juventude latina-americana e a sensibilidade é uma bobagem. e que ela esteve sempre coberta de razão e que quero roubar as frases dela para entregar ao mar. uma carta feito barquinho de papel para ser levada com os castelos de areia. e eu sei disso e me dói, ela não para. parece gritar, mesmo suave, das letras de forma do papel: não me cabe dentro dessa mala velha que você tanto gosta. 





por mais que você tente arrumar tudo direitinho, a mala não fecha, eu concordo. é uma carta de adeus e tantas malas outras já se amontoam no corredor, quero dizer a ela. e que as cartas estão todas a salvo no dossiê doce-é. você devolveu tudo antes de queimar, se lembra? o que aconteceu com nós todos, menina-poeta, indago lembrando da foto da turma de 1998 pregada no quadro de avisos. ela desenhou uma linha laranja no chão do quarto e nunca saiu. ela me dizia que era a linha da moral, mas me confunde, hoje, a palavra. certo e errado, querer e não querer, real e ficção... eu tinha cimentado um esquecimento naquelas cartas, naqueles desenhos, naquela fabulação da vida. e eu ia dizer a ele, dali por diante, olhe, eu não vou voltar atrás. eu não vou voltar a viver com a moral que separa os lados em dois. *


 não quero sair da sua vida. não quero que você saia da minha. mas sinto que devo sair da nossa

*

ela disse que não era adeus como realmente não foi. ela disse que era um sorriso aquele postal. um sorriso sentimental. sorrio toda vez que leio a última palavra, porque é a cara dela. não assinou nem datou nem carimbo era registro de história. porque era ficção, me lembro agora. e no agora uma caixinha cabia dentro da outra e não tinha mais problemas com malas - estavam todas no corredor - e eu também não queria mais caber onde não me coubesse. 

























monet s/berlin

para luis fraenkel


tinha um gosto de desencontro na boca quando olhei aquelas gotas de chuva escorrendo pelo vidro do ônibus, enquanto cruzava o mar báltico. as gotas corriam paralelas e não se encontravam. olhei durante muito tempo aquele espetáculo transparente no vidro enquanto a paisagem ia fugidia. fazia muito frio. e eu desejei nunca mais voltar àquele país.

*

eu me sentei muito perto do mar, com joão sussurrando em meu ouvido e passei longas horas olhando o horizonte. fiz uma imagem dele caminhando pelas ruas de berlim, imaginei como estariam aqueles trajetos que fizemos no compasso ritmado de 4 pés. a beira do rio perto de casa, os sofás do bar vizinho, as árvores de kreutzberg; ele muito barbado, de sobretudo, andando pausadamente pelas ruas na companhia da labradora negra, pensando no próximo poema que iria escrever. desejei imensamente que o laranja daquele verão grávido que se insinuava aos meus olhos o trouxesse daqueles ventos frios do além-mar.

*

verão, você é quente como os beijos que perdi. é cheio de um amor que passou... que meu coração gostaria de esquecer, veio escrito junto com os postais que me mandou.

*
lorena era ruiva e se dirigiu ao filho italiano em português. começamos a conversar quando cruzávamos um mar com chuva e eu tive vontade de falar daquelas gotas paralelas, do azar do desencontro. foi quando eu perguntei você acredita em destino? acredito, mas eu sou muito manipuladora, me disse, num português tão claro, que eu pensei que tinha me decomposto naquela outra voz. e quanto mais ela contava da vida, e contava sem parar, eu me reconhecia nela. let it flow, me disse. o que tem que acontecer, acontece. enquanto isso eu colho trevos da sorte.


*

foi assim, duas gotas que seguiam separadas e se encontraram no final da janela, que nem caminhos cruzados, virando uma só. sossega teu coração, sossega, leoa. as bruxinhas canadenses sopraram em meus ouvidos uma canção. quando desci do ônibus, o amor estava me esperando em berlim.

*

o verão que criou nosso amor
me fez, depois, morrer de dor

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depois de ter me visto nua, o amor; depois de ter riscado meu corpo, ficado feito tatuagem; depois daqueles dias de verão tão tórridos; da certeza do encontro; das promessas de felicidade; do girassol deixado na mesa do ninho, escrito em esperanto, que é pra te dar coragem, peguei as minhas little wings e segui viagem. e guardei em mim uma saudade laranja, que ele não entendeu. não tinha tradução. e eu não soube explicar. porque me ultrapassava.

*

voltará um outro inverno, ele me disse, cairão mil pétalas de rosas. a neve cobrirá tudo. e talvez um pouco de paz voltará, escreveu. desejei imensamente que ele coubesse num novo verão. este.




























hopper s/carte




foi no nonagésimo congresso de esperanto em copenhagen. eu mexi e remexi o chá por horas. eu esperei muito tempo, reli todas as nossas cartas, escrevi postais, escrevinhei bobagens em esperanto. e ele nada. não tive outra opção senão partir.

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é que a distancia maltrata, escrevi em esperanto, no verso. carnaval eu chego lá.

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tem isso do samba se repetir. no peito, a minha ilusão. e quando você fecha o olho a menina ainda dança. perco o ritmo. no som da frase.

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chegou um postal depois que eu voltei. que diz: se não escrevi a mais tempo, foi porque foi o próprio tempo que não me deu tempo. é isso aí, minha amiga, a vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida.

*

era assim, cheio de subtexto, porque são assim os postais.


*

ele se atrasou ou ela esperou tempo demais. tanto faz. o que importa é que quando ele chegou lá, ela já tinha levantado e ido embora. que é assim a paixão. um carrocéu de ir e vir até descer. ele subiu e ela desceu.

*


abraços, ponto final.