caem-se os reis e de repente, devagarzinho, sai da anestesia o corpo.
estava tudo chuva, tudo nuvem outra vez.
mas um sorriso largo dentro da chuva.
um cansaço menino, é verdade, um cansaço, mas um inevitável seguir. eu tinha ido embora, tinha ido embora daquele lugar de paixão.
não doía mais sermos nós, não tinha nenhuma vontade de fazer acontecer.
aí apareceu xangai com seu sorriso branco no preto preto no branco, e me arrancou daquelas lamúrias de samba canção. daquele corpo lento e inerte. me fez seu chocalho, de suas mãos quentes, de seu cheiro de sexo. sua boca no meu sexo era qualquer coisa que me frequentava por dias.
eu era outra rosa na canção, eu era feliz e vibrante naquelas canções. as canções, sempre as canções.
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não acredites em tudo que escrevo, sou cigana, filha.
olhos de beira
beira-mar,
beira de olho,
beira de estrada
me transfiguro cada vez mais. isso do poeta, isso do acaso. do movimento do trânsito. quando voltares para ver, era isso. um punhado de palavras e ilusões tornadas vivíveis no papel. não, não, nada de transpor pra fala, pra máquina. esse sussurro fica aqui, ilhado, na folha desse caderninho azul. capa mole. não deixe ninguém ver, filha. isso do doutor, do telefone, dos caderninhos. não deixe ninguém ler.
olhos de beira
beira-mar,
beira de olho,
beira de estrada
me transfiguro cada vez mais. isso do poeta, isso do acaso. do movimento do trânsito. quando voltares para ver, era isso. um punhado de palavras e ilusões tornadas vivíveis no papel. não, não, nada de transpor pra fala, pra máquina. esse sussurro fica aqui, ilhado, na folha desse caderninho azul. capa mole. não deixe ninguém ver, filha. isso do doutor, do telefone, dos caderninhos. não deixe ninguém ler.
- toda vez que eu mal digo alguma coisa, acontece. me disse a cigana, que era também mãe de rosa. e eu maldisse o amor nos braços de chico, teu pai. mas fique tranquila que quando nasceste eu pedi que iansã te batizasse, lá do alto do sanatório. e que tivesse sempre te soprando da beira. que nunca ficasses como fiquei, tantos anos, esperando. que a vida tivesse movimento, eu desejei com o ventre todo, minha rosa, com o ventre livre. e sempre que vens aqui me visitar, a carta de estrelas me diz que a profecia se cumpriu, disse ela, muito densa.
era quase tempo de armarinhos. era quase tempo de carnaval
dentro das gentes.
era quase tempo de armarinhos. era quase tempo de carnaval
dentro das gentes.
ela me abriu as cartas pela última vez, antes de morrer. mandou eu mesma anotar o que estava por ser dito. como se me dissesse que dali em diante fosse eu a responsável pela escrita da história.
as palavras tem poder, filha, diz sem novidade.
olha as cartas do jogo e meneia a cabeça.
em seguida me olha fundo.
- não há você nesse jogo, filha. o que você está sentindo é pura ficção.
olha as cartas do jogo e meneia a cabeça.
em seguida me olha fundo.
- não há você nesse jogo, filha. o que você está sentindo é pura ficção.
talvez porque acreditasse ainda na verdade. talvez porque fosse esse o cacoete dos escritores: querer escrever a vida a seu bel prazer. ou mesmo porque eu acreditasse nas cartas até o fim. dali em diante era eu agora a responsável pela leitura das cartas, era eu a cigana. talvez sempre talvez, por isso mesmo ela beijou minha mão e não me disse mais nada. nunca mais.
porque eu acreditei no acaso. na invenção.
porque eu acreditei no acaso. na invenção.
a vida é uma toalha de mesa
u ma t o a l h a d e m e s a que n ã o c o b r e a m e s a t o d a
p-u-x-o- -o- -t-e-m-p-o- -t-o-d-o---------------------------------------------------------
dança a tolha para caber
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há sempre uma superfície descoberta
u ma t o a l h a d e m e s a que n ã o c o b r e a m e s a t o d a
p-u-x-o- -o- -t-e-m-p-o- -t-o-d-o---------------------------------------------------------
dança a tolha para caber
para me caber no horizonte de madeira envernizado
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há sempre uma superfície descoberta
n u a
desprotegida
à mercê do acaso
p-u-x-o- -o- -t-e-m-p-o- -t-o-d-o-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
--------------------------------------------------------e m - v ã o--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
a v i d a n ã o c a b e e m t o a l h a s de m e s a------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
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