meu coração tropical
sempre enviará canções
para o teu.
mesmo em silêncio
mesmo que se caia
nessa imensidão de mar
que não chega a lugar algum
a nenhum retorno.
que o coração tropical quebre esse gelo
agora que naufrago em mim.
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entre as mãos o fluido ralo e me pergunto se é mesmo assim que vamos nos perdendo todos, sem cessar, no jogo da noite. tem um buraco no colchão, feito uma concha. me sobra ar. me falta ar. como rodear, rodear, rodear e não cair no mesmo lugar, diz uma voz dentro dos fones de ouvido. me cubro de medo com um lençol antigo queimado na ponta de uma brasa que caiu no passado. tenho vontade de pôr as mãos no balde, esse desejo de espessuras, líquido grosso. abololou tudo, embolou na panela que não consegui mais me mexer. fiquei jogada, perdida, no tapete espinhento escrevendo coisas na parede com lápis de cor. vamos, se levante, diz o dia. o relógio biológico. bio tônico dia dorim. os narradores nos ouvidos. o coração, vagabundo, sempre. espera, espera. chega dessa esperança. perdição. eu expliquei, bem clara, sem voz, com gesto, veja é uma abertura pra dentro, não pra fora. é uma concha pousada nos ouvidos, babe, tira o fone. vem ouvir. não não. venha não. fique aí. dois, três, quatro, uma multidão de perdidos. um sopro no talco e vuuuuuu, dispersão é assim.
a meninha ruiva me leva para passos de memória revividos nas canções de juventude. fones de ouvido, perdida, vi andante. um novelo, um bolo de sentimentos revividos na voz dele, me cantando sem parar um velho novo disco. tinha se tornado mais arrogante, embora doce ainda, rural, tinha andado sumido de mim, do meus trajetos, roque. muito só, sem muitos medos mais, além dos que já soubesse. coisas que eu nunca mais tinha escutado, mas que sabia, eu também, cantar. roque senta-se afastado, pede uma cerveja e um copo. fecha as portas imaginárias do seu setor. me aproximo do vidro e escrevo que era só mais um adeus, nada mais. estilhaço-lhe. depois faço um muro feito eu fosse ilha. eu e ele. escuto repentinamente, coisa de segundos depois, um toc toc, mas aí já tinha me blindado toda. blindado a minha ilha. repito algumas palavras para enfatizar que a vida das ilhas volteia, na aridez do sertão. três dias apenas seria suficiente para eu recobrar a força que herdei daquela utopia. manobras para solidão, vaga de garagem. estaciono um pouco, saio do automóvel. parar ààààs vezes é bom. desautomatizar a digitação. eu tinha aprendido naquela ilha onde naufraguei um dia com roque, eu aprendi a desaparecer com o vento, a parar de co-mover-me.
a porta fechada. muito densa, muito volumosa.
ela com um pote de sementes de jasmim nas mãos. o convite de um jardim.
e escrevendo coisas, sem parar, com os olhos.
dizendo toc, toc, vem, senta aqui, vive. e a porta fechada. muito densa, muito volumosa.
e de resto uma praia noturna. proibida.
ela com um pote de sementes nas mãos.
e falando sozinha coisas de magia, de um agora repentino. e ela falando de toque. de cara com a porta.
é um dengo que sobe pros olhos, me sobe pro corpo, ela diz buliçosa, toc toc.
se acalma pondo palavras no barulhinho do mar. com os olhos.
explode ali, no papel.
e depois chama. é um devir. um vir a ser. é um agora.
agora que tudo está prestes a mudar, ela diz.
as luzes da ilha, muito perto, muito longe, chamando, sem saber. toc toc, estou indo embora e vim dar adeus
e a porta fechada, inaudível, abafada
muito densa, muito volumosa.
e ela fazendo texto, tempo todo, com um pote de sementes de jasmim nas mãos.
quer acontecer, quando tudo está prestes a mudar.
repete a cena. cria histórias. no papel, perdida, é vivível.
na realidade da tinta de uma caneta fineliner.
uma hora se pergunta se é ali mesmo, dentro da porta, onde quer plantar aquelas sementes, onde quer uma árvore de maracujá fazendo sombra numa preguiça.
por isso um estado de dúvida já não diz nada mais que isso, sem metáforas
é só uma porta fechada
uma ligação perdida
me parece mesmo que está tudo prestes a mudar, escreve antes,
na porta que virou muro
um forte contra explosoes de desejo
desentender o tempo para caber em si, escreve na areia do mar
quando o desejo ficou velho
joga ao mar umas sementes, sabendo que não vão dar flor
engole outras
parte para o vem aí, o para lá
das ilhas
e a porta fechada. muito densa, muito volumosa
contínua, estável, conforme
e ele ali enjaulado atrás
jardim era dentro dela
fértil que estava
foi assim que se perderam
ponto final.
ela com um pote de sementes de jasmim nas mãos. o convite de um jardim.
e escrevendo coisas, sem parar, com os olhos.
dizendo toc, toc, vem, senta aqui, vive. e a porta fechada. muito densa, muito volumosa.
e de resto uma praia noturna. proibida.
ela com um pote de sementes nas mãos.
e falando sozinha coisas de magia, de um agora repentino. e ela falando de toque. de cara com a porta.
é um dengo que sobe pros olhos, me sobe pro corpo, ela diz buliçosa, toc toc.
se acalma pondo palavras no barulhinho do mar. com os olhos.
explode ali, no papel.
e depois chama. é um devir. um vir a ser. é um agora.
agora que tudo está prestes a mudar, ela diz.
as luzes da ilha, muito perto, muito longe, chamando, sem saber. toc toc, estou indo embora e vim dar adeus
e a porta fechada, inaudível, abafada
muito densa, muito volumosa.
e ela fazendo texto, tempo todo, com um pote de sementes de jasmim nas mãos.
quer acontecer, quando tudo está prestes a mudar.
repete a cena. cria histórias. no papel, perdida, é vivível.
na realidade da tinta de uma caneta fineliner.
uma hora se pergunta se é ali mesmo, dentro da porta, onde quer plantar aquelas sementes, onde quer uma árvore de maracujá fazendo sombra numa preguiça.
por isso um estado de dúvida já não diz nada mais que isso, sem metáforas
é só uma porta fechada
uma ligação perdida
me parece mesmo que está tudo prestes a mudar, escreve antes,
na porta que virou muro
um forte contra explosoes de desejo
desentender o tempo para caber em si, escreve na areia do mar
quando o desejo ficou velho
joga ao mar umas sementes, sabendo que não vão dar flor
engole outras
parte para o vem aí, o para lá
das ilhas
e a porta fechada. muito densa, muito volumosa
contínua, estável, conforme
e ele ali enjaulado atrás
jardim era dentro dela
fértil que estava
foi assim que se perderam
ponto final.
o sertão era grande demais. era o mundo. a gente escorria numa imensidão onde só importava existir. por isso comecei a pesquisar as pedras. era uma noção de real que eu precisava ter diante do acaso. mas mesmo assim eu fazia disso ou isso se fazia pra mim - tanto faz - de jeito inesperado. isso mesmo. pedras no caminho. mistérios. a pesquisa do desconhecido, feito uma poética. para nunca embrutecer, para nunca enSImentar. o sertão foi um fogo que não tinha mar que chegasse.
parti, querendo ficar. como me doeu isso.
mas sempre havia de ter o carnaval.
gentil me assoprara: esquece a tristeza.
e parti, e voltei e tornei a partir até que a vida fosse pra diante. até que o amor voltasse a arder, feito fogo, fazendo sertão, folia em mim.
tinha aprendido a sutileza da canoa. tinha compreendido o tempo das cartas.
por isso voltei.
mas também não tinha justificativa muito exata. não era preciso. nunca fui. era coisa de não ter bordas. sentido. era a narrativa, era eu, se procurando, se fazendo só.
quando um surdo de terceira do samba na praça ecoou, rompi o silêncio dos perdidos. tirei os fones e soltei a voz. foi lucidez desatino, expliquei a caioá pra depois pingar uma gota de Qboa nos olhos. para que não pudesse ver mais nada de memória, nada de passado. nem morto nem vivo. era carnaval, era fevereiro outra vez, dentro de mim.
e trampolim era pra sambar em cima. viver de risco, ser grave.
chegara da narradora, enxugando no pano de prato as mãos sujas das canções (sic). chegara da ilusão do destino. só valia o acaso.
bastava da maldição do fado.
desliguei o barco e fui pra rima, pro desafino de passos.
mas ao invés da gelada solidão de inverno, uma multidão.
uma multidão gentil a se esquentar de delicadeza, essa política.
num atalho da poética do asfalto, num dia, voltei e sambei outra vez.
parti, querendo ficar. como me doeu isso.
mas sempre havia de ter o carnaval.
gentil me assoprara: esquece a tristeza.
e parti, e voltei e tornei a partir até que a vida fosse pra diante. até que o amor voltasse a arder, feito fogo, fazendo sertão, folia em mim.
tinha aprendido a sutileza da canoa. tinha compreendido o tempo das cartas.
por isso voltei.
mas também não tinha justificativa muito exata. não era preciso. nunca fui. era coisa de não ter bordas. sentido. era a narrativa, era eu, se procurando, se fazendo só.
quando um surdo de terceira do samba na praça ecoou, rompi o silêncio dos perdidos. tirei os fones e soltei a voz. foi lucidez desatino, expliquei a caioá pra depois pingar uma gota de Qboa nos olhos. para que não pudesse ver mais nada de memória, nada de passado. nem morto nem vivo. era carnaval, era fevereiro outra vez, dentro de mim.
e trampolim era pra sambar em cima. viver de risco, ser grave.
chegara da narradora, enxugando no pano de prato as mãos sujas das canções (sic). chegara da ilusão do destino. só valia o acaso.
bastava da maldição do fado.
desliguei o barco e fui pra rima, pro desafino de passos.
mas ao invés da gelada solidão de inverno, uma multidão.
uma multidão gentil a se esquentar de delicadeza, essa política.
num atalho da poética do asfalto, num dia, voltei e sambei outra vez.
ela se levanta e ele está lá. o tigre de papel. amassado. como se um caminhão de mudança tivesse passado por cima. mas não. é igual. e de papel. já não se pode ver, a olho nu, formas, pontas, dentes. é chapado, planificado, gélido. como se nunca tivesse sido fogo. como se nunca tivesse tido vida. ela atravessa o rio, lá fora. fones de ouvido, sempre fones de ouvido. a vida que passa carregando tempo. e outros tempos, muitos perdidos, muitos, repetidos nas músicas em looping do repertório residual. de carinho, fica pouco. muito pouco. quase nada. só histórias. do corpo, só histórias. que a pele se troca e vão as marcas. nunca cicatrizes, só marcas que desmarcam. mas o tigre está lá. preso no quarto. sempre num quarto de dormir. janelas, portas fechadas. gavetas abertas. baús. no barquinho de papel manteiga ela não carrega nada. não pode pesar. senão não passa. e ela é passagem. quase nunca ficou. só no quarto de dormir. no quarto de dormir, nos arquivos, nas marcas que fazem a grafia, ali ela fica.
*
ele compõe uma canção nova. sobre meninas e barcos. tem vontade de colocar um e daí? dissonante. sempre dissonante. porque ama a distorção. e a guitarra fala mais do que qualquer coisa que tenha rabiscado. a guitarra é mais sua voz. e precisa do agudo, porque só nas cordas de aço se permite ser mais alto. e quase não se permite. e agora menina? e agora ela? e se. e se. e se. quem sabe. mas não. ele não sabe nadar. que não se diga assim, tão claro. por isso, usa outra voz sobreposta, interferências atropeladas, provoca ruído. porque foi tudo tão forte que prefere não dizer assim, claro. e termina a canção antes que venha um refrão. que ele não gosta das repetições. grava uma vez e não ouve mais. fica ali mais uma canção perdida. são tantas. sempre serão. barco só a motor, pensa desligando o equipamento. e ela ali, perdida, na canção sem play.
2 perdidos se passa num inverno novaiorquino. ano de eleição presidencial. democratas versus republicanos. muito fone de ouvido, que fone de ouvido sensorialmente é interessantíssimo. 2 perdidos de fones de ouvido. nenhum escuta o outro. e não gritam, silenciam. esquecem forçosamente aquilo não conseguiram entender porque não se permitiram viver. em 2 perdidos cabe um mundo inteiro dentro. de histórias corriqueiras de desencontro e perdição. 2 perdidos se passa no sul na américa do sul. na simultaneidade do tempo.
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