caioá se senta e pede que coloque alguma coisa em seus ouvidos,
para não enlouquecer, ele disse

http://www.youtube.com/watch?v=oNr6aP_xnUY
CAIXA ALTA, A VOZ DA REESCRITA.
logo logo que a gente muda, bem loguinho, é mais difícil. confortável é caber onde nos cabe. o desejo desenfreado, a vontade de consumar a qualquer custo. parar, se olhar, se ouvir requer entrega, um mínimo de compromisso. ouvir uma canção arranhar na gente. júlio segue me ensinando a duras penas suas curvas, suas reviravoltas. um estilhaço que ecoa dentro, ecoa fora. é um tempo de guerra, é um tempo sem sol. recobro finalmente alguma paz quando encontro qualquer coisa de força mesmo no enfraquecimento. e só por isso que consigo cá dizer.
é ver o quanto e até onde a gente pode. e gente pode muito, mas não pode tudo; nunca.

edith leu e disse que era uma borda da autoajuda que nem agradava o mercado nem se safaria de vender como literatura. que eu não tinha bordas. e que parasse de uma vez por todo de falar que a escrita tinha me curado, que escrever era oracular... daqui a pouco iram me tachar de haribol e haribol não vende nem faz história na literatura nacional. no máximo um hippie doidão posando de hipster, mas em londres, não na bahia. tentei convencer edith de que o aleatório ainda ia me levar longe. 
você é arisco, darling, é isso que você é, arisco
assumir complexidades, assumir intensidades, por favor, doutor, anote ai, c-o-m-p-l-e-x-i-d-a-d-e-s.
- comecei a escrever em outro lugar. e me perdi, doutor.
noite de cura. noite de ocultas sensações.
bruxaria. evocar ancestrais, corpos do céu, astros. evocar passado.
cant a r noite de ocultas sensações. bruxaria. evocar ancestrais, corpos do céu, astros. evocar passado. cant a r  ela e esquecer o verão. {por noites #sem desperdício}  ela e esquecer o verão.
{por noites #sem desperdício}noite de ocultas sensações. bruxaria. evocar ancestrais, corpos do céu, astros. evocar passado. cant a r  ela e esquecer o verão.
{por noites #sem desperdício}noite de ocultas sensações. bruxaria. evocar ancestrais, corpos do céu, astros. evocar passado. cant a r  ela e esquecer o verão.
{por noites #sem desperdício}noite de ocultas sensações. bruxaria. evocar ancestrais, corpos do céu, astros. evocar passado. cant a r  ela e esquecer o verão.
{por noites #sem desperdício}noite de ocultas sensações. bruxaria. evocar ancestrais, corpos do céu, astros. evocar passado. cant a r  ela e esquecer o verão.
{por noites #sem desperdício}noite de ocultas sensações. bruxaria. evocar ancestrais, corpos do céu, astros. evocar passado. cant a r  ela e esquecer o verão.
{por noites #sem desperdício}noite de ocultas sensações. bruxaria. evocar ancestrais, corpos do céu, astros. evocar passado. cant a r  ela e esquecer o verão.
{por noites #sem desperdício}noite de ocultas sensações. bruxaria. evocar ancestrais, corpos do céu, astros. evocar passado. cant a r  ela e esquecer o verão.
{por noites #sem desperdício}noite de ocultas sensações. bruxaria. evocar ancestrais, corpos do céu, astros. evocar passado. cant a r  ela e esquecer o verão.
{por noites #sem desperdício}noite de ocultas sensações. bruxaria. evocar ancestrais, corpos do céu, astros. evocar passado. cant a r  ela e esquecer o verão.
{por noites #sem desperdício}noite de ocultas sensações. bruxaria. evocar ancestrais, corpos do céu, astros. evocar passado. cant a r  ela e esquecer o verão.
{por noites #sem desperdício}noite de ocultas sensações. bruxaria. evocar ancestrais, corpos do céu, astros. evocar passado. cant a r  ela e esquecer o verão.
{por noites #sem desperdício}noite de ocultas sensações. bruxaria. evocar ancestrais, corpos do céu, astros. evocar passado. cant a r  ela e esquecer o verão.
{por noites #sem desperdício}noite de ocultas sensações. bruxaria. evocar ancestrais, corpos do céu, astros. evocar passado. cant a r  ela e esquecer o verão.
{por noites #sem desperdício}
meu coração tropical
sempre enviará canções
para o teu.

mesmo em silêncio
mesmo que se caia
nessa imensidão de mar

que não chega a lugar algum
a nenhum retorno.

que o coração tropical quebre esse gelo
agora que naufrago em mim.
na pele
pipoca
o tempo
de espera
do amor.


feito faz o ar marinho na pele do mar
enrugando tudo.

sem cais, sem casca.

sempre sempre o tempo
cortando por dentro o corpo


e o imastigável, ali
no relevo
do entre







a ausência do nome
palavra de cinza
#beijos#beijos#beijos#beijos#beijos#beijos#beijos#beijos#beijos#beijos#beijos#beijos#beijos#beijos


desapegar do acervo
depredações
pensando
sentindo
sem precisar
dizer


- eu vim e escrevi que era para que eu não esquecesse aquela força, jamais.
- fale mais.
- eu escrevi doutor como se quisesse apreender a força daquele tempo.


{a chuva começa e me apanho desprevenida. só porque tinha




parar
não documentar mais
a vida












pralém das áreas vips, dos camarotes disfarçados, dos palanques de rimas, dos abadás dos guetos
para além

quando uma ou duas vezes só
quando um bocadinho só
de dormidas nos leva a uma intimidade
de cheiro pele gozo
de estar nu

{conectando
com o outro
cheiro pele gozo}

de querer outra vez
quando tudo já tiver
sumido
evaporado
no asfalto

estranho sempre te ver na rua
o modo como é
tudo muito nada

escrevo assim da maneira que sou
mania de botar palavra
essa lava escorrendo quente
no corpo que pulsa
{pele osso líquido}

sentindo tudo, intensa, no volume máximo

qualquer coisa que aconteceu e não continuou.




para achar uma coisa, você precisou perder tantas, minha filha, ela disse.
a mãe de rosa ouvia vozes. tanto, que enlouquecera. e era a mais sábia das loucas. acreditava no acaso feito loba. arranhava a pele da vida feito sol que racha até arder, a terra. e ela repetiu: pra achar uma coisa, você precisou perder tantas, minha filha.
para no dia que você vier
e eu não estiver ido embora

toma esse poema, observador.

pra no dia que você não vier
e eu nunca tiver ido embora
desse lugar

toma esse poema, querido,
que ele me sossegue o corpo

pra no dia que você vier
tarde demais, observador,
quando eu já tiver partido,

esse poema, meu amor,
toma,
que ele te beije os olhos.

eu sou a selva
e a selva somos nós

{seive-me. salve-me. selve-me}

não tem ponto
a luz invadindo os quatros cantos
sem interruptor

aguar a mágoa
deixar a vida ir
pradianti
deixar a vida
pragora
{sem pretéritos}


estar cósmico
é sermos todos ao mesmo tempo agora






















se você quiser amar
se você quiser amor
vem comigo a salvador {sic}








a sábia senhora diz - fico com o fogo para curar as minhas feridas. para fechá-las.
olho o meu vestido de suturas e sigo com ela um cortejo de oferendas, selvafora.

coragem, em letras garrafais. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. coragem. 





bethania me sopra vive vive e eu fico toda corajosa. insisto nesse tema, por dias. porque na verdade não precisa explicar muita coisa, não é? essa mania de batucar palavras, botar melodia quando digo, provocar explosões. percebe? escrevo parati pragora. e mesmo assim amo muitos homens, porque o amor há de ser sempre transitório, simultâneo.... mas existem encontros de vida que se imprimem na pele, no caminho da gente. eu sei, meu amor, eu sei. faço uns entrocamentos de palava, fico comendo pelas beiras, percorrendo bordas. mas, vem, amor, vem, voa comigo;


















aquele 
frágil
entardecer 


me rasgando o peito.


era essa e muitas outras imagens que me vinham. e uma pata de loba, da terra, me azunhando o rosto. um gesto leve, familiar e ao mesmo tempo cortante. que nem palavra. que nem navalha pouca afiada. repentina feito contração de parto, que se espera mas nunca se sabe pra quando exatamente. um oco veio lá de dentro, como se fosse um fluxo do vazio. ecoou nos arredores da fogueira que xangai tinha acendido.

uma queda dágua me arrebatou. cai como uma loba, em idade de transição. serpentes, serpentinas, dentro de mim. a seiva me lavando o passado para que eu entendesse de outros. para que eu entendesse tudo que fosse maior. pus pra fora um pouco do que engoli. para entender como aquilo me tornava uma, só uma. e eu era as árvores, eu era a mata. foi quando morri. morri outra vez. e habitei o mistério da mata. partilhei dele. eu estava expandindo, passando por cima do passado recente. eu estava me lembrando, na medida em que me esquecia da tribo recente. estava não só me lembrando, mas habitando de novo outros tambores que tocavam meu coração. estava refratando,refratando minha narração demolidora. e prensada. dura. pedra.
eu tinha morrido outra vez.

o compromisso de se transformar
contínuo
o curso da vida
iroko

a existência,
a alma,
esse vulto.

depois de ter tropeçado, várias vezes. depois do medo me tomar, entendi que aquilo não era pouco.

entendi que tinha ficado seca, parado de chorar, porque tinha perdido a coragem de me derramar. de estar liberta. de estar sincera com alguma verdade. por isso, por isso eu voltei a chorar. chorar até que inchasse toda a pálpebra, que contivesse no muco, preso, tanto liquido que me fizesse morta-viva. paragem. gramas verdes, gramas verdes, e o líquido depois quando passou um vento. um vento oco. estava conectada outra vez com todos os sentidos, inclusive daqueles que não pudemos nomear.


terroristas da floresta.
 o lobo me convocava para a luta. 
para não passar ileso ao amor, à poesia da vida.


eu voltei a escrever porque voltei a escutar-me quando escutei a floresta. quando ela me curou.








ele nao queria que eu o mordesse. abu era outro, mas era o mesmo. queria ele mesmo me fazer as marcas. e só. nao havia de ser um bom lugar, mas me lembrava que eu tinha carne, eu era corpo em sua boca. e só. ai, abu, eu dizia de olhos de dengo, não me mastigue assim.

A educação dos cinco sentidos
essa voz que atravessa verdemente a travessia
o canto da seiva, da cura.

a escrita em fluxo
vida pradianti

para além do puro protocolo.
já se passaram mais de cem páginas, um punhado de cabelos brancos e mais de mil leões. alô, cachorros do meu brasil, nada de raiva. mordidas só de carinho. sem medo de dizer, cara pintada, vamo lá, com poesia nos olhos. que o fogo tá na rua e o ano é pouco para nós. é vem ela aí outra vez. vamos tomar banho de mar, meus queridos, vamos de sal. que o açúcar endoidece as gentes.

abraçar e agradecer

a moça da lata me coreografa uma vida. carne viva. essa que pulsa. tudo ficou muito pior quando tivemos que desacreditar nos outros, esconder nossa voz dentro do armário, colocar o corpo todo dentro de uma gaveta, de uma calcinha. não vamos fingir que nada está acontecendo, não vamos acreditar muito no que nos acontece. créditos e débitos. o corpo mordido, levado um pedaço. nossa obsessão. sim, é óbvio, meus amigos, claro claro está tudo fora do lugar, mas como acreditar no tempo sem futuro, no tempo do agora, no tempo da paixão. - quem criou o tempo do sufoco? necessidade vontade desejo? o peito acabrunhado?
ah, não, sem esse moedor, mundo, sem esse violão. vida leve nas folhas das gentes. ar vóres matas de dentro de nós. ser tão mar

comecei, começou, de novo.

navegante do acaso. assim sem saber pra onde corre o verbo.
sem premeditar, sem expectativas, sem grandes planos de como caminhar no tempo. essa vida junto dentro fora de casa. o corpo-mundo. nunca igual. permanentemente alterado, abatido pela experiência.

penduro palavras na parede.

1,2,3 testando

o alfabeto é um grande oráculo
jogo com ele.




- por que voltou?
- porque me deixei muda, doutor. porque ficou tudo parado. ou correndo demais.
- filha, só se escreve em movimento.
- não tenho que parar, pra entender? não tenho que parar pra entender, doutor?
ela não quer que me entregue à completa procrastinação do drama. ela não quer isso. essa frase palavrão. então, eu me sentei porque ela fala do mar, dos corpos sutis, e entrei naquela sedução transcendental da imanência. fechei muito bem o quarto de hóspede até ficar muito escuro, muito confinado, somzinho tocando as quatros paredes. sento no chão para agarrar com as mãos as pontas do pé. para ser cobra.

seguro os passos
escovo os espinhos.
ouriço-me eu só

não me lembro quem, alguém já deve ter dito isso, em cada poema tem milágrimas. mil sais.

sinto bastante os pés no chão.

faço um esforço pra sentir que eu também estou ali, acontecendo, subterrânea.



para Janaína Chavier

oxumaré
um ar marinho em são paulo, 
feito uma clandestina garrafa 

um sopro - isso não é um souvenir. 

nana
dada

várias e rápidas sensações impossíveis na lentidão do teclado. 


essência provisória. 
CEPs e BRs

cobras lindas 
curas. 

estar móvel no mundo.



preciso me mudar um pouco de posição, esticar os joelhos, ficar no escuro, colocar o disco do amarante que não ouço há dias. - mamãe, você me dá alguma coisa pra comer? me levanto prontamente e penso em todo trajeto que é isso, não é o espetáculo do teatro, embora tenha um certo ritual. é mais banal que isso, corriqueiro e vulgar e ah, vocês devem ter entendido, assim, por cima. não me digam que ouvir o disco do amarante não é interessante suficiente para o que se escreve aqui, não me patrulhe, leitor. eu tenho a liberdade total de estar aqui, falando alto, no endereço da minha escrita. eu conquistei esse lugar, essa força. não me falem de ingenuidade, barões, vocês conquistaram isso. 


penso, por minutos, se agora desligasse a luz, por exemplo, do monitor, do touch.
será que alguém toca minhas palavras em uma tela? será que toco quem me toca? sou tocada por quem eu toco? será será será? será que isso tudo aqui torna menos solitário o escrever

de repente tenho uma vontade enorme de transformar as pedras em correntes. uma voz circulando numa aldeia. 
é, uma aldeia....






abandonar a saudade não poderia ser isso? desapego.

o que é da terra pra terra. viver o maior dos amores sem apego, por isso o maior dos amores.


o tempo e as coisas, anote ai, é um título de filosofia.





Eu te escuto, mundo, fala que eu te escuto. seríssima, sereníssima.
sorrio e digo vem, pode se sentar, se assentar no meu corpo. somos todos nós mundos.
ele reside em mim, eu resido nele. saber disso já é um alívio.
sair da eu-foria,
e botar-se atenta. eu sei, eu sei, que vocês estão ouvindo. eu sei que estou falando em público. esse público do privado. privado do público. por que começamos a botar tudo nas caixas das palavras, na caixas de diálogo, nas caixas de futuro?

futuro entendimento
futuro ausente de si

o bruxo diz
- o outro é um eu.

achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz. achar essa voz.

explosões

sermos aldeia de novo. vencermos os medos. ouvir mais o silencio com o vento de areia nos ouvidos. desertos de mar. deixar vir o fluxo.


entender o choro como líquido, que sai do corpo. como rio, que vem de dentro da gente. ser rio, ser floresta. as serpentes, as cobras no corpo da gente. movimento contínuo. paz.  a cobra viva, a cura, a pipoca.

Não
esconda 
mais os seus sentimentos, seus pensamentos, ou os dons 

ofereça-os ao resto do mundo.
























me senti numa aldeia,
plena como não estou agora, fora do ritual.
pensava incessantemente, quando reconhecia do transe aquele céu, na fuga, na liberdade. na delicadeza do bailado, das cirandas, dos erês. 
deixei tanta coisa escorrer naquele templo a céu aberto. 
entendi tanto o tempo.
e mesmo assim a impermanência da carne, uma fortaleza no sangue correndo nas veias, verdes, feito rio. os olhos de água, se derramando, pondo tudo pra fora, sem que nada disso fosse espetáculo, mas experiência, mas movimento...
E aquele agogô acordando a minha ancestralidade. e os místicos se saciando de vida, de presente. 

me senti numa aldeia, uma outra.
sempre trocando trocando trocando, fugindo da capa, sem ressentimento dela, pulando de panela em panela, de manhã em manhãs, página por página. vivi o amor junto o amor só. e o tamanho do mundo dentro dele. o fora-dentro feito tivessem a mesma pele. era só fechar os olhos e sentir.

por isso eu disse a ele, sem que aquilo pudesse ser lido um dia por qualquer outra pessoa, ele, inclusive

- te amo, mas não te quero pra mim.

mas não, eu disse mais não, mesmo sabendo que ele tinha sido meu homem, meu homem dentro de mim, fazendo marca no meu corpo. que a tantos pertencia que não pertencia a nenhum. sim, é claro, não me confunda, dizia a caioá, havia uma pedrinha dele, pequena, verde, desenhada com seus olhos que nunca saíram de dentro de mim.
mas isso não pesava a me impedir de caminhar. no fundo, lá, do bolso, fazia era um barulhinho bom, quando da fricção com os outros grãos as outras chaves as palavras, verbos congelados, esse rio pra patinar.

era o tempo-teia

e eu era livre outra vez. 




















tudo bem que você se incomode, eu também me incomodo, disse, mastigando pedra. estou aqui pesquisando, tateando essas rochas, levando pra casa aquilo que me parece pré-didático. tudo bem, eu disse, tudo bem. engoli rápido e forte a fumaça. estamos perdendo tempo de conhecer outros becos, outras peles, ela disse e eu concordei. ficas vinte e quatro horas sentada nesta mesa, me diZ caioá a quem permito diZer tudo que pensa.

<br></br>

de repente alguma coisa parou de funcionar no meu teclado,
novamente tive a força de diZer,
finalmente entendi a coragem em um não diZer.
costurada fora toda aquela cicatriz, aquele relevo de palavras picotadas.
marina lima o dia inteiro para virar a página. que, no fundo, no fundo, somos todos sós, poetas. e a poesia é antes de tudo uma experiência, a ficção uma mentirinha.
não, eu disse a moça, não me fure com seu olho vodoo, esse olho alfinete. agulha. abotoadeira.

/interrompi o fluxo com a pedra, no dente, decidi não mastigar. tinha coisa que era assim. um troço rígido feito osso. falso trigo. falso pó.
nem tudo flui a cada teste.

dadamaloca s/armarinho de revelar



essas intenções
se viam
procurando dentro
um rio pra patinar

tentativa, sempre uma tentativa.


será que vai ter uma hora
que as gentes vão se cansar
dessa vida de feed?

meio do livro


aqui-
é-
tar-se

consigo

meditar
me editar

aquietar-se
no retalhinho
de si

ser só
quando um bocadinho
é bom

ser aqui
ser agora


























armadilhas s/violão

it's a minimal head movement
to see the building with the blue sky
to take a deep breath
to feel happiness



ia me indo, depois de tanto navegar, na rebordose do balanço do mar, no retorno a casa. depois da chuva foi fazendo um céu muito azul, o sol que a gente precisava pra se proteger do que se escamoteava sob os nossos ombros, daquilo que só sabíamos dizer não sei.
foi quando de repente elas começaram a chegar. primeiro uma, tempos depois outra. e depois várias. mais de uma num só dia.
tinham muitas cores mas principalmente as laranjas. as ocres. as telhas. as borboletas me atravessavam o tempo todo. e diziam, não paravam de contar bons preságios.
eu não tive dúvida, só porque já era vitorioso por demais estar ali, vivendo a vida que tinha escolhido. eu tinha decidido pelo porto outra vez. e mesmo assim, nessa certeza, comecei a sussurrar secretamente novos desejos pro corpo da casa, pra casa do corpo. comecei a escrever presságios, cigana que era.
me desfiz das ancoras, essas que eu tinha aprendido desde moça a manejar, aquele jeito velho de sentir amor feito ele fosse posse. valia o amor, mas valia ali, tanto quanto, a liberdade da solidão; que era tudo que tinha.
abandonar o mar para viver de terra, de areia de litoral.
de achar de ser sertão também na babilônia. de fazer da babilônia um sertão.
ai ai ai -
e eram tantos, muitos, eram demais os perigos da vida, as armadilhas do ego do sexo do prazer da paixão. eram tantos que abri as janelas, acolhida, para ouvir um pouco só aquele violão, poesia de fim de semana, pedacinho de céu.
depois reforcei o teto que caíra com tanto tempo de abandono daquela casa que tinha sido minha uma vez. abandono que tinha sido feito só entre mim, entre muitas de mim, e todo o passado.
aí arranquei todo o mato, fiz jardim, teci agasalhos. compus sambas por ali. novos, novinhos. pra demorar de se cansar. pra demorar de se cansar de cantar.
- e elas ali, voando entre nós -
não tinha vestígio de qualquer passado.
quando os moços, os jovens moços ainda cantavam no longplay, pinguei mais uma gota de Qboa nos olhos
e fui, solta, desenrolar o tempo, o tempo do novo.
promessa de felicidade.
bocado de terra.


como se faz um escritor?, somnia sabe e a professora se pergunta, em voz alta, como se faz um escritor?
sento-me aqui para ouvir. fico pensando na criação mesma de retratos nossos distribuídos, panfletados, cheios de vontade da conquista da rede de recados, dos rostinhos bonitinhos do facebook. voltamos ao império da cara, caímos na armadilha do fotoshop. dilvulgo a ação, somnia, a ação da escrita, a intervenção de corte, pra quem quiser, pra quem gostar de palavras materializadas em objeto. poesia tátil. 
que ela sabe. ela sempre sabe
e me diz
mesmo sem posse de razão
isso é só mais um capricho seu, rosa.
ele retira o post antes que eu possa curtir. roque é assim. mesmo quando sai um pouquinho do coturno. e calça uma legítima havaianas. quando pode até se balançar com swing. está lá, na sua ilha que é o sertão. mas não se levanta pra quase nada.
e quem passa indiferente
a um agosto na vida?
sei que me embolei, perdi o ritmo. acontece muitas vezes comigo, sabe, aquele descarrilho, um atropelo talvez, mas menos do que isso um bocadinho. se nenhum te atravessar, serás tu o próximo, armarinho. romances irracionais, irreparáveis. iromance radicais. radicais livres, sucos verde-rosa. nunca sei conjugar o plural de pares de cor. sou torta para normas, me desculpe, meus alunos, pronto falei.
mas é isso que se passa. tudo voltando, um monte de coisa se repetindo diferente, é, diferente e igual, sabe. e a grande oportunidade. isso que tudo mundo fala no ano que corre, grande oportunidade de mudança. mas qualquer passo em falso uma nova repetição. iromances.

caem-se os reis e de repente, devagarzinho, sai da anestesia o corpo.
estava tudo chuva, tudo nuvem outra vez.
mas um sorriso largo dentro da chuva.
um cansaço menino, é verdade, um cansaço, mas um inevitável seguir. eu tinha ido embora, tinha ido embora daquele lugar de paixão.
não doía mais sermos nós, não tinha nenhuma vontade de fazer acontecer.

aí apareceu xangai com seu sorriso branco no preto preto no branco, e me arrancou daquelas lamúrias de samba canção. daquele corpo lento e inerte. me fez seu chocalho, de suas mãos quentes, de seu cheiro de sexo. sua boca no meu sexo era qualquer coisa que me frequentava por dias.

eu era outra rosa na canção, eu era feliz e vibrante naquelas canções. as canções, sempre as canções.

















sobrevoo s/caio horóscopo abreu 


seeds
there
in his hands

a small portion of love

lay your head, whisper somebody else 
to listen the lesson

 terra, respondo em português.



tardes morenas. magnólia, eu disse, mag mag mag nólias.

na hora q foi todo mundoi eu vim

ai meu deus que mania de amor
que vontade de terra.

e o batom vermelho?
still there. still there.

eu disse magnólia eu disse magnólia


não escondo minha meota
de ninguém.

but

i love you
i love you all

não, mag, não foi ficar menorzinha menorzinha
foi ficar maior



por isso, se não agir não vai acontecer.
Vamos transformar isso, camarada.
Precisa de solidão pra construir um teto. E o teto é onde mora o amor.

por isso greve geral do dizer
férias, verão. 

verão que virão as mil laranjas
os 29 beijos
os 32 dentes

dentro do calorzinho do ventre de júlio

movimentar-se para esse pacífico que vai chegar,
esse outro mar

concentrar-se em si mas nos outros
na multidão

ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir 

dizer cotidianamente mesmo sem bondade, mas no amor

saber que é isso mesmo. nem todo dia tem nuvem leve no céu.
por isso corra
corra e olhe o céu

me cante alegrias, me cante paixões


uma hora serei toda tua, armarinho
toda tua

mas agora estou bagunçada, enrolada nos fios elétricos, nos trios frenéticos da vida
esse tempo que pouco tem pausa

isso, isso, faz assim que alivia, 
pôr a cabeça no armário e dizer
 iloveyou
mas tá tudo bagunçado, emaranhado

ah, não importa
pelé disse love love love

escutar os próprios barulhinhos, então. e dizer -
- é permitido. tudo. 

e quem aguenta tudo, meu amor?
até quando aguentaremos esses nós. esses nozes.


pergunto em voz alta. 
aumento um pouco o tom para que não percas minha voz na babel que nos cerca
todos


você acha que sente mais que todo mundo, me julga caioá, ferino como é

ah, meu amor, é esse verão que me bota inexoravelmente intensa





deixa eu fingir?





vai passar, meu amor, o verão vai passar. vai passar. vai passar. 


E eu volto. Só para ti. Só pra ti. 





Impede. Fica diferente demais ficar nu. Conversar nu, tomar banho nu, cozinhar pelado. A gente fica nu inteiramente nu inteiramente nu. Mas dai dai tem qualquer sombra adiante de saboneteiras e uma serenidade de ser o que é. Gosto quando é assim. Aquilo que despede e despedaço qualquer coisa que escorre do corpo, de dentro, do gozo.  Aquilo que vaza, de intimidade, do que se é, de muito.

Eu vi, eu vi, meu corpo escorreu ali. Não pude não tive como evitar. Aquilo que ficou ali, na coberta do meu quarto. 
tá no volume máximo e eu peço que ele aumente um pouco. é que sofro de dengo, digo aos reflexos dos vidros que abrigam seus olhos oblíquos feito caracol. pergunto por que ele demorou tanto, por que nunca respondeu minhas cartas. e ele me chama para ouvir o mar, fazer qualquer outra coisa da ruína que não esse peso, essa pedra, cheia de perguntas. deixasse minhas perguntas pra pesquisa, ele mesmo não sabia o que responder, mesmo sendo também sertão. só não queria afirmar nada, disse roque, trazendo literaturas para ler em voz alta. eu devolvi uma miragem do porto. silenciosa. quase ausente. fiquei naquela beleza só, só vendo. queria mesmo era marambaia, desejava o sossego do amor, não o barco sem rumo. isso surpreendia roque, que achava que era meu escolhido. que desconhecia que vivia no acaso. e que eu tinha sim navegado também no corpo dele. também. mar da vida. aquele dicionário marítimo que fazia meu corpo girar. me fazia maior.
Quero ficar aqui escrevendo de calcinha. Colocar água perrier da calcanhoto na radiola, na gal, e ficar livre pra sofrer, beijar os cotovelos. E compor. Leitor, vá lendo dando pausas bem esticadas em cada ponto. Tem muito silencio aqui. Um silencio estranho. Tem escrito amor mais amor por todos os lados e adriana canta uma espécie de velhice. Consulto oráculos. Livros para mesa de Ed. Onde será que começa um e termina outro? Estamos sempre no meio. Peraí, doutor, tem uma espécie de circularidade a vida?? Essa cidade me atravessa, me atravessa forte, não é tudo no final das contas uma questão da cidade, meu amor? Não, caioá, não saia por aí dizendo que você sabe quem eu sou. Você não sabe dos meus acasos. Isso que carrego no passo.


Notas
Escrever pra Luciene
Pegar a senha da internet com as vizinhas
Festa da horta – primeira edição


Das armas de palavras, das armas da arte _
É um milagre. Elas não matam ninguém.
Pessoas que pensam máquinas.


A escrita dionisíaca, louca.

Dos meus tempos de dispersão. A paixão, mesmo, é uma dispersão.


- eu te amo, eu disse a ele, doutor. Eu te amo. Mas eu posso transformar esse amor.  
As canções, principalmente as canções.
Como pensar em outros tempos? Cruzar essas linhas? Volto a fazer perguntas para tentar chegar numa hipótese. Faço novos diagramas. Fazer notas do processo. Pinçar sobras. Perder alguma coisa, desapegar de alguns textos.

Focar-se.
Esquecer a rua, mas sempre voltar a ela.
Fazer pesquisa subindo ladeiras, torneando o corpo, viva, nesta escrita gerada parida no agora.

Tornar a casa
É retomar a força.


Essa história tem que acabar. Foi assim que ele me disse. Essa história tem que morrer. Mas morreu, ele morreu, explico a narrativa a Caioá. Love, can you hear me now? Love, can you hear me? O que eu faço com isso que sobrou? Onde eu coloco? Nas letras, nega, me responde ele, sopre, deixe o vento vendavar pelo teu peito. Deixo. Lembro de xangô quando penso no calor morno de junho que fica prestes a chegar e bater na porta. Uma fogueira nas mãos. Me banho nas águas do mar, enquanto ele lixa canoas. Estou ali ao seu lado. Última imagem me vem feito presságio. Rosa pensa em Jorge, um outro, um duplo. Os novatos se afastam para não pegar fuligem. Entendi, digo a eles. Entender como se criam as coisas, como apertamos laços e nós por aí. Cometer, praticar o amor livre. Cantar vivendo a canção, dançar com palavras. Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre ir onde quiser. Percorrer as bordas da rua, fazendo poesia de passos, na fugacidade deles. Dormir em paz. Ação. Divulg ação . pé quente cabeça fria.


Tornar a casa
É retomar a força.

enrascadas afetivas, transas babilônicas, vazios insuperáveis.























- por que tudo foi ficando tão demodê, minha gente? - por que foi tudo ficando tão passageiro?



tranco três portas. encosto duas. o vento de junho bate o resto. o amor, o mar, o sertão, não param de me procurar nos objetos do dia, nos vídeos abertos ao acaso, nas caixas de memória, nas balas de rolagem. tudo que abro são nada mais que labirintos. escrevo, escrevo, cavuco terras, sopro poeira vez em quando. faço loucuras, bobagens, travessuras. sou feliz e triste, quero e não quero, sou sem saída vez em quando.







molho as plantas para ficar tudo bem, tudo muito bem. águo os caminhos. faço furos, pulo para descer a água e lavrar-me. afundo uns personagens, termino histórias antes de terminá-las. vou dando ponto na vida feito bordasse ela. com as mãos bordo fio de tempo, com a boca faço desenredo. ponto e vírgula. ponto e vírgula. ponto e vírgula. melhor - molho e durmo - pingo poesia pra no sonho caminhar melhor. daí voltam os amores que não param de me procurar. nos objetos, nas canções, nos escritos urbanos. num envelope que cai no meu colo sem querer e se gasta noite afora. é rígido o sistema de vida e morte do amor. é rápido é ríspido.
pontos de luz, anjos exterminados, autópsias. eu não sei dizer alto assim, a poesia em alta. fiz isso já alguma vez? quando brincava de amarelinha com as atrizes? acendo um bocadinho de fogo porque de resto é tudo gelo. não me acende em nada a juventude americana. compro passagens, percorro lugares virgens. fiz isso já alguma vez? dezenas, centenas, sempre errando, sempre me repetindo. pecando sempre pelo carinho. nunca pelo ódio. do outro lado da rua, aspiram branco para durar. eu desisto, saio batendo portas, trancando cadeados pra não voltar mais ao antigos lugares da palavra. todo mundo entende, clara, alva, muito legível o cansaço. de resto, querendo aprender, querendo mudar, querendo mudar, querendo mudar, querendo mudar, querendo mudar, querendo mudar, querendo mudar, querendo mudar, querendo mudar, querendo mudar, querendo mudar, oya de mim, na ponta do dedos, oya de mim. abrindo livros ao acaso feito oráculo. eu não sei dirigir seu carro, digo ao moço mais tarde, muito tarde. ninguém me lê mesmo, conjugo qualquer verbo sem concordância. verifico a caixa de mensagens para ver se acendo, mas estou fraca. digo a moça estou só, estou só, viu, não pense não o contrário, não fique bordando caraminholas nesse chapéu. sei, eu sei que sei ficar assim em silêncio.
- tirei as muletas
- e depois?
- cai, doutor.
- e depois?
- não sei.
- procure se lembrar, filha.
- ficou dormente, doutor, ficou dormente e eu precisei fugir.
- sem as muletas?
- sem as muletas.










sem cais s/azul

chico reaparece, depois de um longo sumiço. está aborrecido com qualquer coisa da vida e se apoquenta de me ver em alto mar. aumenta o tom de voz, me tira do saveiro e diz com dureza que prefere que eu volte para a areia, que eu cultive âncoras, que eu tenha filhos. permaneço silenciosa como acordei. se ele que me ensinou  a viver de pradianti, a amar os canoeiros, que talvez não se lembre disso mesmo, que me ensinou no corpo, no gesto, sem dizer uma palavra sequer e eu tenho vontade de botar texto, dizer, não, meu pai, me deixe em alto mar, pois todo cais é uma saudade.
talvez ele esteja muito velho para tantas aventuras de amor no violão e me quer inteira fincada na terra, por isso continua dizendo, já como se conversasse sozinho, você precisa dessa segurança, rosa, você precisa dessa estabilidade. respondo comigo mesma mas a vida é meio água, meu pai, e aí me confundo se é essa mesmo a metáfora. me confundo muito e olhando pra chico às vezes duvido que ele se lembre que é um marítimo. só por uns instantes. isso dele virar outro tem hora. talvez porque sinta dor de ser o que é. isso que sente todas as gentes. por isso inventa, inventa, fica inventando imagens para mim. penso depois de muito tempo ainda posso ainda posso ainda posso ir bem mais. eu sei desse cansaço, meu pai, não digo. devolvo qualquer rispidez. que eu também tenho as minhas dores. as minhas perdas. o meu amor sem cais. os braços de jorge que nunca mais. as mil lágrimas secas no que restou de sal.
encaro-o docemente, logo após, que vejo ali um homem que amou demais. aquele velho sonhador.
tantas imagens simultâneas e são novos os olhos que lhe aponto, como se aquelas temporadas de mar, desde que deixei a beira, tivessem colocado ciscos no meu olhar.