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você é um amor que - como uma janela - eu não posso deixar aberta todo o tempo, disse a xangai e saí porque não conseguia falar de amor numa hora daquelas. precisava voltar ao sol, única luz que poderia nos fortalecer naqueles tempos sombrios. melhor ouvir os loucos, meu amor, vamos, venha já, vamos pra rua.

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ele recosta as mãos sob o mobiliário e decide lixar mais uma canoa. tinha se cansado da rua. e o barracão era o mundo. queria o cheiro da preta, queria sua fruta aberta. tinha se cansado demais das cordas que puxara diadentro, com os homens do mar. era como se quisesse mais aquela canoa de dois, aquele rio estreito, na beira de uma pedra.

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isso tudo ele me disse depois, conto a caioá, meio sem jeito de discordar, sabe, na crise de quem quer um caminho diferente e não consegue dizer. aquilo que ele não me diz porque não sabe, completa caioá.

eu respirei fundo e sorri para xangai.
depois parti, porque eu não podia parar.
estou há horas sentada na praia de iemanjá em busca de rosa. muitas embarcações chegam e partem, nenhuma é o pradianti. entro nas ruínas de uma casa abandonada.  foi muito tempo que passou, doutor. eu não me lembrava como tinha chegado até ali. o vento sul zuninha meus cabelos e me levava para um tempo que era totalmente desconhecido, do esquecimento, o tempo da lonjura.
mas uma hora, como um vulto de mar,
veio um lapso e me passou o velho apartamento de rosa.
o rapaz cantando, ao violão de uma das sala - a flor do velho, me curou. o sol se recolhendo em mais um ocaso, um ocaso do vento forte. tive essa imagem e me lembrei de repente de rosa, não, eu vi o relance de rosa na casa abandonada, com os olhos em brasa. como um sol enorme iluminando a parede de escritos, lambendo a casa inteira com sua chama; secando tudo até virar pó. rosa, uma fogueira surgindo no meio do mar.
eu não queria novamente ouvir, voltei ao tempo neblinado da memória, respirei e disse - pra que ela escutasse - eu não quero mais ouvir você me narrar essas histórias repetidas do mar, rosa. essa doença de sua mãe.

-a poeta profeta que delira e funda na poesia o sonho, o desejo - ela, então, me enfrenta.

senta-se e me encara mareada e carnavalesca. era possível ver bem quando rosa estava mareada. ela tinha um olhar fundo como o das sereias. e uma obstinação das ciganas. era pura explosão .



e ela me disse



f a t - a l
y   v u l c â n i a :


- a paixão é leme, irmã. ando colecionando palavras. olhando bem perto para as miudezas os desperdícios as cordas que me exigem toda a força dos meus braços e só os meus braços, irmã, a apertar os nós de cada porto,
você coleciona pedras, nega, você não sabe do que está falando. não sabe ser água, abrir caminho por dentro da água.
eu vivo inteira dentro desse pradianti. e eu não paro; nunca mais. eu não teço espera como minha mãe. eu parti, moça, essa coragem eu tive, eu parti. de maneira drástica incendiária abrindo tudo que fosse caminho, eu peguei aquele barco e não voltei nunca mais.


o acaso, o transitório, o errático. esfria esses pés, rosa. enterra o coração no quintal. é muito arriscado viver no mar.

- nós somos um povo do mar, me diz, incorrigível.
você que cata essas palavras como pedras. me deixa navegar no acaso. é você que escreve, que emoldura o tempo. não bote palavras na minha boca. eu sou livre. eu












passamos muito tempo em silêncio. nós duas e o insuspenso não dito depois do dito.

ela me disse, bem mais serena, você quer colecionar palavra feito pedra. eu quero navegar o acaso, nega.

- assim você não tece, você se desfaz.

- por que diabos eu preciso tecer territórios afetivos? por que diabos o amor? no mar, é a vida que grita. não tenho tempo para o delírio. não vê? você é a delirante, morena do mar, você é da beira. não escutas o assobio de caymmi nos seus ouvidos? a incerteza também está com você, mana, somos um povo do mar e você também ama os canoeiros, que nunca ficam, que sempre voltam.  que vivem do risco, embora ancore alguns dias no seu quintal. quero essa sina ao revés, a favor do acaso, do mistério da vida. o caminho é um só e pode ser vários.

ouço tudo
inteira e partida
como ela

e me boto marítima solene e profana
me boto n e la
a caminho do ar marinho.
















aquele mar vermelho
agora de ressaca.
é tanta vida, meu deus, é tanta vida
pulsando dentro das gentes.

*

fiquei pensando que se tivesse esse silêncio total, sempre, sempre sem resposta, não me custaria nada continuar escrevendo pra você, em cena aberta, mas eu prefiro essa intimidade das cartas sem resposta cuja resposta é um preferiria não. não é um não, é uma preferiria não. há potência nisso, darling, há potência nisso; veja, mas eu preciso continuar dizendo, contando, mandando cartas pra ti. mesmo que você se inquiete, mesmo que você não se inquiete nada. mesmo que nada, eu tudo.

*

vi o mar entardecendo vermelho, ficando quase escuro, mas demorando muito de mudar de tom, de modo que a experiência da cor, a experiência da cor, meu amor, passasse pela pele da gente. da pele de sal.
deixa o sol entrar no teu peito e me perdoa, meu amor. me perdoa. te perdoa. te cura, te cura, eu disse querendo que ele voltasse, que eu tinha mesmo apagando a pegada dele, mas que tinha sido isso e já não é mais isso. entendeu? mil e-mails devolvidos. e ele me lendo e ele me negando resposta. que ele me desse aquele outro outrono, um traço que refizesse aquele inverno que ele passou sem mim, cheio de promessas. e eu andando por canoas, amando marinheiros, sempre só no cais. e ele oferecendo vida na neve que cobriu nosso telefone.
eu me assustei, eu disse, caioá, eu me assustei. mas querendo agora que ele voltasse.
meu coração tropical
sempre enviará canções
para o teu.

mesmo em silêncio
mesmo que se caia
nessa imensidão de mar

que não chega a lugar algum
a nenhum retorno.

que o coração tropical quebre esse gelo
agora que naufrago em mim.
na pele
pipoca
o tempo
de espera
do amor.


feito faz o ar marinho na pele do mar
enrugando tudo.

sem cais, sem casca.

sempre sempre o tempo
cortando por dentro o corpo


e o imastigável, ali
no relevo
do entre







a ausência do nome
palavra de cinza
Quero ficar aqui escrevendo de calcinha. Colocar água perrier da calcanhoto na radiola, na gal, e ficar livre pra sofrer, beijar os cotovelos. E compor. Leitor, vá lendo dando pausas bem esticadas em cada ponto. Tem muito silencio aqui. Um silencio estranho. Tem escrito amor mais amor por todos os lados e adriana canta uma espécie de velhice. Consulto oráculos. Livros para mesa de Ed. Onde será que começa um e termina outro? Estamos sempre no meio. Peraí, doutor, tem uma espécie de circularidade a vida?? Essa cidade me atravessa, me atravessa forte, não é tudo no final das contas uma questão da cidade, meu amor? Não, caioá, não saia por aí dizendo que você sabe quem eu sou. Você não sabe dos meus acasos. Isso que carrego no passo.


Notas
Escrever pra Luciene
Pegar a senha da internet com as vizinhas
Festa da horta – primeira edição


Das armas de palavras, das armas da arte _
É um milagre. Elas não matam ninguém.
Pessoas que pensam máquinas.


A escrita dionisíaca, louca.

Dos meus tempos de dispersão. A paixão, mesmo, é uma dispersão.


- eu te amo, eu disse a ele, doutor. Eu te amo. Mas eu posso transformar esse amor.  
As canções, principalmente as canções.
Como pensar em outros tempos? Cruzar essas linhas? Volto a fazer perguntas para tentar chegar numa hipótese. Faço novos diagramas. Fazer notas do processo. Pinçar sobras. Perder alguma coisa, desapegar de alguns textos.

Focar-se.
Esquecer a rua, mas sempre voltar a ela.
Fazer pesquisa subindo ladeiras, torneando o corpo, viva, nesta escrita gerada parida no agora.

Tornar a casa
É retomar a força.


Essa história tem que acabar. Foi assim que ele me disse. Essa história tem que morrer. Mas morreu, ele morreu, explico a narrativa a Caioá. Love, can you hear me now? Love, can you hear me? O que eu faço com isso que sobrou? Onde eu coloco? Nas letras, nega, me responde ele, sopre, deixe o vento vendavar pelo teu peito. Deixo. Lembro de xangô quando penso no calor morno de junho que fica prestes a chegar e bater na porta. Uma fogueira nas mãos. Me banho nas águas do mar, enquanto ele lixa canoas. Estou ali ao seu lado. Última imagem me vem feito presságio. Rosa pensa em Jorge, um outro, um duplo. Os novatos se afastam para não pegar fuligem. Entendi, digo a eles. Entender como se criam as coisas, como apertamos laços e nós por aí. Cometer, praticar o amor livre. Cantar vivendo a canção, dançar com palavras. Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre Livre ir onde quiser. Percorrer as bordas da rua, fazendo poesia de passos, na fugacidade deles. Dormir em paz. Ação. Divulg ação . pé quente cabeça fria.


Tornar a casa
É retomar a força.

o imaginário vasto e próprio criado sob um endereço eletrônico. meu deus, por que começou a ficar tudo tão difícil, blasé essa coisa toda de fingir que não usa o facebook, que não escuta a rede de recados? por que não tomar mais posição do que fingir que não fala? passa um segundo da minha frase e ela se torna totalmente absolutamente perecível. desacompanho o ritmo de caioá porque ele ficou longe, em outro tempo. de certa forma porque um dia ele morreu. alguém me perguntou se eu não escrevo sobre um monte de cadáveres. eu respondi, tempo, é o tempo que está depressa, fugidio. há uma luz muito amarela no novo birô de palavras e prefiro continuar com joni mitchell em outro volume, com menos clareamento. me espreguiço muito lânguida, muito alongada, que o observador, do outro lado da rede, se seduz. todo mundo pensa que estou sozinha mas tanta gente coabita. filmes velhos, muitos metros de fio. desligo toda e qualquer eletricidade. veja, não quero voar. deita deita deita. explosões intravenosas. confusões. eu não amo ninguém, moça. eu não amo ninguém.
mordo, engulo todos eles, devoradora. ficam aqui, correndo pelo sangue. fico aqui, morrendo pela boca. invenções.
esse rasgo, doutor, esse rasgo que não quer fechar.
dentro de mim.


deito o regador distante e vazio. não falo nada, nada. deixo seco o jardim de ilusões.
há formigas por toda parte.
ele me canta superhomem e eu vejo em nós um oxumaré. tudo mudou tão de lugar. e é o que me faz viver ele soprando aquele mantra, ó mãe, quem dera. a força da mulher e tudo mais. quem sabe, eu respondo. mas saio voando pelas calçadas estreitas, as fronteiras. e dizendo pros meninos das senhas, nos carrinhos de café, não, não, você não me entendeu bem. eu estaria bem melhor se não fosse essa foto, meu filho. eu poderia beber aquele vinho todo ali que estaria em pé. isso que me pede a manhã.
a haste do brinquedo quebra e fica ali uma fratura
frágil que ele é

- bobagens, meu filho, bobagens

arte, manhas

- vento não leva cisco. é de levar tudo pradianti, lugar algum.
todo menino é um rei. todo menino é um mundo. acena o menino nu, neolítico. o menino mundo on the road. voltando pra casa que nunca é uma. ensaio um abraço com um movimento de mãos, uma dança ao coro feminino, um batuque de terreiro. bordo calmaria. volto






















th de mello s/ lantejolho






he gives me river lessons
with delicate eyes


something about love
the biggest, he means

something as a wind breath
strong
soft

wild like nina sings


and more and more and more

a dry fish
in her hand
and she keeps saying that


the woman killed the fishes. 







ele me penetra como um vento. um vento geral. enorme. maior que um mar. tem as mãos do norte leves, o olho teso, muito forte, muito doce. por favor, não dê animais de presente para esses meninos. animais não são brinquedos nas mãos de crianças, de gentes.


é coisa mais maior de grande. ele, o menino, que canta como se sangrasse e entende. e diz por mim, pondo muito silêncio na leitura que faço dele. quando eu soltar a minha voz por favor entenda. são as lutas, somos todos nós; aqui. são alguns de nós, talvez mais. vivendo lendo atravessando essas palavras. uma geração inteira salobra, tentando deslembrar do tanto que se cantou a esperança, esse peso, suave coisa nenhuma, doutor, suave coisa nenhuma, a moça repetia ao telefone. ele canta ao meu ouvido ao som da caravela de hélices. digo que tenho medo de escutar as vozes do vento, agora que fechei as janelas e parei a máquina pra velejar. ele brada sem stop, para que aprendas da respiração, apenas escutando, sem dizer. sem narrativa sem narrativa sem narrativa sem narrativa sem narrativa sem narrativa sem narrativa sem narrativa sem narrativa sem narrativa sem narrativa sem narrativa sem narrativa sem narrativa explodo de modo a respirar longo, explodo na pausa, ao mesmo tempo.
contrario o ritmo, o tempo das linhas escorrendo pelos dedos, por debaixo do LSD do LCD. preguiça do barulho que faz o enlouquecer, virar caquinhos. o que aprendi só sei quando não digo. preparar flores, plantar árvores, ler o alto sertão sem auto centrar-se. ser verde. ser outra coisa que transborde o sentido, mesmo aquele do rio. de todo modo, não estar seca, ele me ensina, com suas mãos muito velhas, ásperas, leves, precisas. o claro de tão negro do amazonas cortando a pele da terra, antes que vire chão, cimento. ah, menina, ele balança de canoa e me sopra eu estou aqui nesta toada, eu que lhe vi menina, eu que nunca lhe vi mulher, mas imaginei. rompe os olhos de jabutica, esses olhos de aguamento do matogrosso. quem é ela? quem é ela? quem é ela? a mãe que abraça dentro do mar. e outra soprando um sobrevoo oceânico. é isso, eu não vou postar. é isso, entende? ele está aqui nos meus ouvidos,  isso basta.
ela pergunta pergunta pergunta pergunta em looping: onde será que isso começa?
quando pousa?
não sei responder porque assim não me pauso.
por isso devolvo.
e para?
e cessa?
enter por enter.
isso do viajar de uma viagem?
ele ouve o que escrevo e tem vontade de verdade.
pra tantas tira som de uma cabaça.
diz que são dúvidas.
me desfia
jogando água no que seca de sol
no que arrefece
sopra minha ferida e diz:

- o tempo é esse rio, e tu a canoa que se cansa e fica no meio da história.
por isso podes parar nesta linha se achas que é hora, maninha.
descança.
diz forjando uma amizade que não existe.
lavra-me
com a mão que é a voz.

sorrio, doce, com a suavidade dos aguamentos.
venha,
tire essas mãos da máquina e toque um pouco de terra, de rio.
me derramo.
porque não cesso.

ele me leva livre
ele me cura.

ponho os lençóis para secar, limpos.

parto dolorido as cordas do umbigo de cada âncora e nos repartimos,
toda a manada
cada um na sua correnteza
sendo rio

do corte, agora, só esse da canoa
na espinha, a fenda do pradianti


e fica aquele olho,
que não sai de dentro,
no armário de mim.


veio comigo, no voo;





ame-me
pero
keep walking







- toda vez que eu mal digo alguma coisa, acontece. me disse a cigana, que era também mãe de rosa. e eu maldisse o amor nos braços de chico, teu pai. mas fique tranquila que quando nasceste eu pedi que iansã te batizasse, lá do alto do sanatório. e que tivesse sempre te soprando da beira. que nunca ficasses como fiquei, tantos anos, esperando. que a vida tivesse movimento, eu desejei com o ventre todo, minha rosa, com o ventre livre. e sempre que vens aqui me visitar, a carta de estrelas me diz que a profecia se cumpriu, disse ela, muito densa.
era quase tempo de armarinhos. era quase tempo de carnaval
dentro das gentes.
- são nada. ele diz da outra ponta da pista de dança vazia e ensolarada.

manequins nuas fazem o/
- até quinta eu chego a duzentos.
- tanta coisa que se pode pensar que bom mesmo é não entrar pelo cano. ser dada. explosões.

duas gatinhas pretas dengosas e uma vista para o cemitério.

a nossa casa é onde a gente está, passarinho. 
soprei ao redor, antes de passar.
- estivesse leve para voltar ao pretérito do presente.
sorri de mim. sorri pros canoeiros todos sem amor, só com respeito. mas leve. riso solto e bonito. desses que fazem dobrinhas nos microsinais. eu tinha um regador azul nas maos. e banhava a terra, plantava ovos. era tempo de amor porque era tempo de vida vivida e não de vida narrada. era tempo de barrigas. de sertão. mas sertão de chuva, essa felicidade. e no gesto todo cabia uma poÉtica.

eu voltava diferente porque abandonava os olhos de provincia para ter um olho-mundo. 
esse do sertão. 


desde que voltei pela primeira vez e tantas vezes mais fui, voltei, fui, voltei, Jorge nunca havia acreditado na minha mudança. Custara a entender que nunca mais haveria de me ter inteira. e nem ogum, nem xangai, nem roque, nenhum deles entenderam que nunca mais morena rosa espiando, esperando no cais. o pradianti era minha nova paixão e ir embora era o jeito de me fazer outra que não a mãe.


mas eu sabia que algo estava prestes a acontecer. tudo estava prestes a mudar.
só nunca intui, isso soube depois, que seria o amor outra vez o amor navegando numa jangada. mesmo que tivesse uma morte entre a beira e o mar. mesmo que pra isso alguém tivesse que morrer.














                  

eyes s/curtain



insideout
outinside

just let me time
to understand

(to not)

just being writting


ain't me
in us

ain't you
that look without read

it's just a windows
publishing everything out

don't forget, she said
insideout
outinside

>thanks, belly
o sertão era grande demais. era o mundo. a gente escorria numa imensidão onde só importava existir. por isso comecei a pesquisar as pedras. era uma noção de real que eu precisava ter diante do acaso. mas mesmo assim eu fazia disso ou isso se fazia pra mim - tanto faz - de jeito inesperado. isso mesmo. pedras no caminho. mistérios. a pesquisa do desconhecido, feito uma poética. para nunca embrutecer, para nunca enSImentar. o sertão foi um fogo que não tinha mar que chegasse.

parti, querendo ficar. como me doeu isso.

mas sempre havia de ter o carnaval.

gentil me assoprara: esquece a tristeza.

e parti, e voltei e tornei a partir até que a vida fosse pra diante. até que o amor voltasse a arder, feito fogo, fazendo sertão, folia em mim.
tinha aprendido a sutileza da canoa. tinha compreendido o tempo das cartas.
por isso voltei.
mas também não tinha justificativa muito exata. não era preciso. nunca fui. era coisa de não ter bordas. sentido. era a narrativa, era eu, se procurando, se fazendo só. 

quando um surdo de terceira do samba na praça ecoou, rompi o silêncio dos perdidos. tirei os fones e soltei a voz. foi lucidez desatino, expliquei a caioá pra depois pingar uma gota de Qboa nos olhos. para que não pudesse ver mais nada de memória, nada de passado. nem morto nem vivo. era carnaval, era fevereiro outra vez, dentro de mim. 

e trampolim era pra sambar em cima. viver de risco, ser grave. 
 
chegara da narradora, enxugando no pano de prato as mãos sujas das canções (sic). chegara da ilusão do destino. só valia o acaso.  
bastava da maldição do fado.
desliguei o barco e fui pra rima, pro desafino de passos. 
mas ao invés da gelada solidão de inverno, uma multidão. 
uma multidão gentil a se esquentar de delicadeza, essa política. 

num atalho da poética do asfalto, num dia, voltei e sambei outra vez.